E se a sua carreira começasse pelo “fim”? E se a faculdade viesse depois de alcançar realização profissional, depois dos 30? Para Dagoberto Assunção foi mais ou menos assim que aconteceu. Antes que tivesse ideia da profissão que seguiria, ele já sentia vontade de conhecer o mundo e foi a partir desse desejo que iniciou sua busca. “Procurei agências de intercâmbio, mas elas cobravam taxas enormes. Então, como eu já tinha cidadania espanhola por causa da minha mãe, comecei a mandar e-mail para as escolas europeias perguntando como me matricular”, conta Dagoberto, hoje secretário/recepcionista na Empiricus, famosa publicadora de conteúdo sobre finanças.

Hoje, fluente em inglês e espanhol e falante de outros dois idiomas, orgulha-se do que aprendeu em seis anos trabalhando e viajando ao redor do mundo em navios. Apesar de uma rotina intensa, Dagoberto aproveitou a experiência para expandir sua cultura e aprimorar suas habilidades de comunicação e relacionamento interpessoal.

De office-boy a secretário da presidência

Aos 15 anos, quando ainda estudava, redigiu um currículo e saiu distribuindo pelas empresas próximas ao seu colégio. “Meu pai, nessa época, só me dava dinheiro para o lanche. Eu gostava muito do Nirvana e queria comprar um violão e os CDs da banda. A melhor opção que eu via era arranjar um trabalho”, relembra. Depois que passou no processo seletivo do banco Itaú para a vaga de office-boy, Dagoberto começou a expandir seus horizontes. “Tive que aprender a pegar ônibus, metrô… Aprendi a andar em São Paulo. Guardava o dinheiro do ônibus e me locomovia à pé para economizar”.

Como resultado do bom trabalho que desempenhou em empresas como o Hospital Albert Einstein e a construtora Odebrecht, Dagoberto foi convidado recentemente para trabalhar ao lado da secretária do CEO da Empiricus, realizando funções administrativas.

Agora, aos 32 anos, com o intuito de solidificar sua carreira, decidiu começar a faculdade de Gestão de RH. “Optei por um curso que tem a ver comigo, que lida com o público e que não durasse muito tempo. Assim, quando terminar, ainda tenho tempo para fazer uma pós-graduação e terminar antes dos 40 anos”, conclui.

Quanto ganha um secretário bilíngue?
O salário médio desse profissional é de R$ 4.947 por mês (Fonte: LoveMondays).

PC: Como foi o início da sua carreira? Seu primeiro emprego foi aos 15 anos, como office-boy, certo?

Sim. Meu pai, nessa época, só me dava dinheiro para o lanche. Eu estava numa fase roqueira, gostava muito do Nirvana e queria comprar um violão e os CDs da banda. E a melhor opção que eu via era arranjar um trabalho. Então, digitei um currículo e saí entregando. Eu estudava bem próximo a uma agência do Itaú e decidi tentar lá. Passei na segunda tentativa e foi quando comecei a me desenvolver. Tive que aprender a pegar ônibus e metrô. Guardava o dinheiro do ônibus e andava à pé para economizar. Aprendi a me locomover em São Paulo e a desenvolver a comunicação.

PC: Como aconteceu a ideia de fazer um mochilão?

Em 2007 eu trabalhava em uma rede de hotéis de São Paulo como recepcionista e, nessa época, já tinha uma poupança que a minha avó tinha feito para pagar minha faculdade. Mas ela disse que eu decidiria o que fazer com o dinheiro e eu decidi fazer um mochilão. Comecei por Barcelona, Paris, Bordeaux, fiz um curso técnico em hotelaria e estagiei em um hotel do Palace. Um colega ia trabalhar em um navio da Royal Caribbean e me indicou para trabalhar lá. Comecei como bellman (uma espécie de mensageiro e room service). Trabalhei de 2008 a 2014 em navios. Tinha dois meses de férias: passava um no Brasil e o outro viajando pelo mundo. Conheci 38 países no total. Fui para lugares como Gilbratar, Irlanda, França e Gênova (Itália).

PC: O que essas viagens acrescentaram na sua formação profissional?

Eu falo inglês e espanhol fluentemente e me comunico bem em francês e italiano.

PC: Como era a rotina de trabalhar em um navio?

Comecei como bellman, fazendo toda a parte de room service (serviço de quarto) e distribuindo as mensagens do capitão pelo navio, quando ele pedia. Depois, fui para a recepção, fazendo check-in e check-out e conferindo o caixa do cassino. Lá eu trabalhava todos os dias por 14 horas e descansava 12. É um trabalho cansativo, mas dá para se divertir e tem a recompensa de conhecer vários lugares do mundo e pessoas diferentes, além de ter contato com culturas muito legais. Mas a vantagem maior é não ter gasto com casa, comida e o seu salário fica só para você. Em 2014, conheci minha esposa, tivemos um filho e ela me pediu para ficar mais no Brasil para acompanhar a gravidez. Aí eu resolvi sair dessa vida de navio.

PC: E aí você teve que voltar a ter um emprego tradicional? Como foi essa mudança?

Eu tinha uma amiga que trabalhava como concierge no Hospital Albert Einstein e me chamou para trabalhar com ela em 2014. Fui ser líder de todas as recepções do Einstein, todos os blocos e mensageiros. Nesse mesmo ano, essa amiga foi trabalhar na Odebrecht e me levou com ela. Eles estavam finalizando um prédio no Butantã e precisavam de pessoas experientes, com know-how de hotelaria, porque queriam que a recepção tivesse cara de hotel.

Trabalhei na recepção principal, coordenando toda a implementação. Quando a esposa do Doutor Marcelo Odebrecht viu meu modo de atender, de abordar as pessoas, me chamou para trabalhar na recepção da presidência. Lá eu fazia o que eu faço aqui hoje, ou seja, coordenava a agenda da presidência e dos funcionários diretos dela. Fiquei de 2015 até junho de 2019, quando fui convidado para vir para a Empiricus.

PC: Me conte um pouco sobre a sua rotina aí. Acredito que não seja uma tarefa simples lidar com a agenda da presidência de uma empresa desse porte…

Aqui eu não preciso usar terno e gravata o tempo inteiro. O clima é muito saudável. Eles são muito mais abertos a funcionários com tatuagem, cabelo comprido, barba… então eu vejo muito mais possibilidade de me desenvolver profissionalmente aqui.

Dou apoio na agenda do Caio Mesquita, que é o CEO da Empiricus. A Dani, secretária dele, fica mais focada na agenda dele, mas quando precisa de algo, ela passa para mim. Atendo a todos os departamentos quando precisam enviar algum documento para outro escritório, reconhecer firma, essas coisas mais administrativas. Além disso, coordeno a agenda da sala de reuniões. Então, quando alguém precisa da sala e, por algum motivo, não consegue agendar, eu faço esse link.

PC: Hoje você consegue usar todo o seu conhecimento de outros idiomas no trabalho?

Consigo, porque a Empiricus é associada ao The Agora, uma empresa americana. Então, tudo o que eu preciso falar com eles é em inglês. Além disso, a linguagem técnica de business também é toda em inglês, já que a Empiricus é uma empresa de investimento financeiro.

PC: Você fez algum curso de idiomas ou aprendeu tudo “na raça”, durante as viagens?

Eu estudei inglês na Wizard dos 10 aos 14 anos. Minha mãe é espanhola e meus pais me colocaram na Escola Rui Bloem, que fica na Praça da Árvore, para residentes espanhóis. A grade curricular do francês era junto com português e inglês. Fiquei três anos estudando francês, então, quando viajei já tinha uma noção. Mas a escola nunca é igual à prática. A fluência veio mesmo quando tive que falar diversas línguas enquanto estive no navio. Lá você divide a cabine com indianos, russos… então, ou falava inglês ou falava inglês.

Dagoberto próximo à famosa estátua "O Beijo", em San Diego (EUA)
Dagoberto próximo à famosa estátua “O Beijo”, em San Diego (EUA)

PC: O que você acredita que é fundamental para ser um bom recepcionista?

Tem que saber lidar com pessoas, ter jogo de cintura. Na parte de hotelaria, por exemplo, é preciso entender que, muitas vezes, quando um hóspede é grosseiro ou ríspido, não é com você. Às vezes foi algo que aconteceu no dia dele. O voo atrasou, um taxi foi mais lento… e o primeiro contato que ele vai ter depois disso pode ser com você. Por isso, é preciso atender o próximo com um sorriso. É importante estar sempre de bom humor, atender as pessoas com hospitalidade e carisma. Se não gostar de trabalhar com pessoas, nem adianta ir para essa área. E não dá para pensar que trabalhar em recepção é só ficar no telefone e no computador, tem sempre que fazer algo a mais.

PC: Então é preciso estar disposto a fazer mais do que o básico que a profissão pede…

Sim. Acredito que me destaquei por sempre fazer um pouco a mais sem parecer que estou me intrometendo. Por exemplo, no meu primeiro emprego como office-boy no Banco Itaú, tinha um diretor que sempre dizia: “se for tirar uma cópia, tire a melhor cópia. Se for encadernar, faça a melhor encadernação. Porque, pode ter certeza de que alguém vai ver”. Então, sempre tive isso comigo. Se estou na recepção, quero atender da melhor forma, porque isso me satisfaz. Além de saber que uma hora vou ser reconhecido. Não é à toa que cheguei aqui na Empiricus. A Dani era secretária de um diretor de outra empresa do grupo Odebrecht e eu da presidência. Eu sempre a atendia com o melhor humor possível, com a melhor educação. Foi assim que ela notou o meu trabalho e, depois que veio para cá, me convidou para a vaga de apoio a ela.

PC: Qual a importância da organização para o seu trabalho hoje?

É fundamental. Tenho várias pastas em que organizo, por exemplo, os currículos enviados para a Empiricus. Quando o pessoal do RH precisa de candidatos com determinado perfil eu encaminho. Mesmo os currículos que recebo em papel, ficam separados. Criei várias pastas no meu e-mail por assunto, então se alguém me pedir algo relacionado… Nós temos três gavetas com tudo organizado com etiquetas. Os materiais de escritório têm que estar dentro de um campo de visão em que você se encontre. Além disso, um visitante não pode chegar na recepção e ter a impressão de que passou um furacão.

PC: Você ainda pretende fazer faculdade, mesmo depois dos 30?

Sim. Vou começar a fazer Gestão de RH. Meu pensamento é fazer uma carreira aqui na Empiricus, por isso pensei em duas coisas: se eu fizer um curso muito longo, por exemplo, Direito ou Administração, são quatro anos mais uma especialização, então vou terminar com quase 40 anos. Assim eu não teria um tempo legal para fazer uma carreira. Dessa forma, optei por um curso que tem a ver comigo, que lida com o público e que não dura muito tempo. São dois anos de curso e depois eu tenho tempo para fazer uma pós.

PC: Você se considera bem sucedido? O que é sucesso para você?

Considero-me bem-sucedido, mas em busca de mais. Minha concepção de sucesso é ter autorreconhecimento de tudo o que passei na minha vida profissional desde que era office-boy, aprendendo a andar de ônibus, ou mesmo no navio, em que eu passava, às vezes, nove meses trabalhando direto. Chegar no momento em que estou hoje, em uma empresa conceituada e ver que tudo valeu a pena. Ver que todas as vezes em que eu disse “não aguento mais” valeram a pena.