Ter um canal de sucesso no YouTube ou na televisão é o sonho de muitos jovens brasileiros, afinal, os holofotes da fama podem ser muito atraentes. Mas para Raquel Auzier, o que importa mesmo é realizar um bom trabalho, enaltecendo os profissionais que atuam nos bastidores das cozinhas de grandes restaurantes. Por isso, seu programa Giro da Gastronomia mostra o que fazem os garçons, cozinheiros e chefs, e entrevista celebridades, como os cantores Daniel e Leo Santana. Entretanto, nem só de glamour vive a apresentadora: os dois milhões de views que seu canal acumula ao longo de oito anos de existência são consequência de muito trabalho ao lado de Jorge Ferreira, seu marido, com quem divide o sucesso do programa. “Além de apresentar, eu faço pauta, vou atrás dos parceiros e o Jorge filma, dirige e edita”, conta Raquel.

O poder da resiliência

Desde que lançou o canal no YouTube, em 2010, já são cerca de 600 programas gravados, mais de 500 restaurantes visitados e nove prêmios concedidos pela Câmara Municipal de São Paulo. E, além de estar disponível na internet, o Giro da Gastronomia também pode ser visto na TV Guarulhos (canal 3, da NET) e na TV Aberta São Paulo (canal 9 da NET). Além disso, recentemente, passou a integrar a programação da TVCOM BRASIL e da TV Suzano. Tudo isso veio como consequência da determinação de Raquel, que também bateu à porta de emissoras como SBT, Rede TV e Record. “Quantos ‘nãos’ eu levei em oito anos de programa? Mais de 30 mil. Mas continuo lutando até conseguir o ‘sim’”, conclui.

Você trabalha há muitos anos no meio televisivo. De onde vem sua veia artística?

Aos 12 anos, eu queria ser modelo e manequim. Fiz minha mãe me levar no SENAC, onde estava acontecendo um curso de modelo de passarela. Ela não tinha dinheiro, mas me inscreveu, e eu fiz uma prova com mais de 80 pessoas, passei e fiz o curso de graça. Logo depois, eu quis ser atriz, fui estudar teatro na escola Emilio Fontana e, em seguida, no Teatro Escola Macunaíma. Mais tarde, aos 15 anos, eu conheci o Wolf Maia, que me apontou algumas escolas de artes dramáticas no Rio de Janeiro, mas eu não consegui fazer por falta de condições financeiras. Eu tinha acabado de ter um filho e fiquei viúva muito cedo. Tinha que trabalhar e não sobrava dinheiro para bancar meu sonho. Com 19 anos, eu já trabalhava em um hotel e fazia figuração no SBT (Hebe, Programa do Jô Soares, novelas) para complementar minha renda.

E quando a gastronomia passa a fazer parte da sua história?

Eu estou há 33 anos na gastronomia. Terminei o colegial aos 17 anos e precisava trabalhar, mas não tinha experiência nenhuma. Meu primeiro emprego foi em um hotel, embora eu não soubesse absolutamente nada a respeito. Aprendi tudo de gastronomia lá, na prática. Comecei como repositora do frigobar, depois passei para o restaurante e fui a primeira garçonete do Brasil a trabalhar na área. Em seguida, fui a primeira maîtresse dentro do restaurante. Passei por restaurantes de hotéis como o Residence, o Della Volpe e o Renaissance. Em 1999, eu estava dando uma palestra no hotel Della Volpe e uma das proprietárias da faculdade Hotec estava presente e me convidou para dar aula lá. Foi assim que me tornei docente do curso de gastronomia da Hotec, onde estou há 20 anos. Quando tinha 34 anos, ingressei na faculdade de hotelaria e, logo depois, fiz pós-graduação em docência em gastronomia.

Como foi o seu início na carreira de apresentadora?

Eu trabalhei no programa A Casa é Sua, do apresentador Clodovil, na Rede TV, em 2003. Interpretava uma governanta no quadro Fuxico na Cozinha. Dos bastidores, ficava observando o trabalho dele. Posteriormente, em 2005, surgiu a ideia de fazer um programa em que eu mostrasse os bastidores de um restaurante. Minha vontade era divulgar o trabalho dos chefs, dos garçons. Mas guardei a ideia comigo.

Em 2010, tive a oportunidade de conhecer a Marlene Mattos, ex-empresária da apresentadora Xuxa. No mesmo ano, liguei para ela e falei sobre o projeto do programa de gastronomia. Perguntei se deveria colocá-lo no papel e buscar oportunidades em emissoras. Mas, como era o início da internet, ela me aconselhou a começar por essa mídia que ainda ia crescer e me daria a visibilidade que eu precisava naquele início. Só depois, eu deveria partir para uma emissora. Disse para eu colocar a ideia no papel e registrar o nome do programa. E foi a primeira coisa que eu fiz. Registrei e patenteei o Giro da Gastronomia. Nesse meio tempo, eu deveria fazer um piloto. E eu nem sabia o que era piloto. Mas me virei, fui pesquisar na internet. Meu marido tinha uma câmera pequena e eu pedi para que ele filmasse, mesmo sem saber direito como fazer.

E o programa piloto ficou bom?

Fizemos o piloto no restaurante de um amigo no Tatuapé, sem experiência nenhuma com o equipamento, então ficou uma porcaria: o som não saiu, a iluminação ficou uma droga. Contei para a Marlene e ela me aconselhou a aproveitar o que desse na edição e subir o vídeo assim mesmo em algum canal. Assim, fui uma das primeiras pessoas a ter um canal no YouTube. Meu marido aprendeu a usar a plataforma para subir os vídeos. Assim, no final de 2010, colocamos o primeiro programa no ar. E não paramos mais. Já são cerca de 600 programas gravados, mais de 500 restaurantes visitados e mais de 80 artistas entrevistados no quadro Na Cozinha com Meu Ídolo. Além disso, recebemos nove prêmios da Câmara Municipal de São Paulo. Mas o fato de eu ser professora me ajudou com a didática: uni o microfone ao meu conhecimento de gastronomia e deu certo.

O que você aconselha para quem quer começar um canal do zero? Por onde começar?

Aconselho a adquirir um equipamento HD, o que não é barato, mas se a pessoa quer, tem que ir atrás, comprando ou por meio de parcerias. Mas, se não tiver dinheiro para comprar um bom equipamento, deve ter um bom celular, um bom tripé, e começar o trabalho, meter a cara. Hoje está tudo muito mais fácil, existem celulares que fazem filmagens ótimas. Ela mesma pode editar, filmar. Não deve ter medo. A internet é rica em informações, então não tem desculpa para não aprender. Se errar, faz de novo. Se ficar uma porcaria, não tem problema, não desiste, faz, refaz.

É preciso ter resiliência, certo? Quais outras aptidões são necessárias para ser bem-sucedido como apresentador? Qual é o perfil de um bom profissional?

Em primeiro lugar, a pessoa precisa focar no que ela quer. Se quer ter um programa, tem que meter a cara. O perfil nasce com a pessoa. Se quer mesmo aquilo, ela já tem o perfil. Mas tem que ter garra, determinação, lutar e não desistir. Saber errar e aprender. Esse é o perfil.

Imagino que essa resiliência seja importante também para lidar com possíveis entrevistados “casca-grossa” ou de personalidade difícil. Isso pode ser um desafio nessa profissão?

Sim. Mas foi um desafio que consegui driblar dentro da sala de aula. A partir de uma dúvida de um aluno, por exemplo. É difícil lidar com uma geração de pessoas que “sabem tudo” – embora não possamos generalizar. Mas, graças a Deus, em oito anos de programa, eu nunca peguei uma pessoa que me deu uma resposta torta, que foi mal educado ou que eu tive que contornar. Deus me preparou para o que eu faço e me dá sabedoria para me sair bem em tudo o que eu faço.

Como foi a “evolução” do YouTube para a televisão? É fácil entrar em uma televisão depois de consolidar o canal no YouTube?

Chegou um determinando momento em que eu quis alçar novos voos, pois comecei a sentir que o YouTube estava ficando pequeno. Queria ir para uma emissora de televisão. E a Marlene já tinha me dito que quando eu quisesse ir para a TV, teria que ter material para apresentar. Então fui até o SBT, atrás do Silvio Santos; em seguida, fui até a Rede TV, fiquei esperando pelo Marcelo de Carvalho e falei com ele no carro. Fui até a Record e entreguei o projeto do meu programa para um diretor. Quantos “nãos” eu levei em oito anos de programa? Mais de 30 mil. Mas continuo lutando até conseguir o “sim”. E coloco nas mãos de Deus.

Raquel entrevista o cantor Daniel

Assim, há dois anos, fui fazer uma entrevista na TV Aberta e conheci um grande jornalista que me chamou para ser entrevistada no programa dele. Ele era o assessor do presidente da TV Aberta e me perguntou se eu queria ir para a TV Guarulhos. Aceitei e, cinco meses depois, fui convidada para ir para a TV Aberta. Há dois meses, o programa passou a ser veiculado em rede nacional pela TVCOM BRASIL e, no início de maio, tive a notícia de que o programa está sendo transmitido pela TV Suzano.

Nessa época em que a internet se mostra muito mais forte do que a TV em muitos sentidos, vale a pena o esforço para entrar em um canal de televisão?

Sim. Assim como há milhões de pessoas que optam pelo celular, que preferem acessar seus programas de qualquer lugar e a hora que quiserem, ainda existem pessoas que querem chegar em casa, tomar um banho, sentar no sofá e assistir a um filme, ou ao programa do Silvio Santos comendo pipoca. Por isso, a televisão ainda tem seu poder. Pequeno? Pode ser, mas ainda tem. Se existem esses dois canais hoje para trabalhar, eu aproveito. Mas não vou abrir mão da televisão porque a internet tem mais força.

Por toda a sua experiência no mercado, tem algum conselho que costuma dar para seus alunos?

Sempre digo que nós não fazemos nada sozinhos. Precisamos das outras pessoas. É claro que não é fácil conviver, porque somos diferentes.  E, por isso, devemos respeitá-las, aceitá-las como elas são e amá-las. Não adianta tentar derrubar as pessoas no trabalho, porque tudo o que se faz, volta. O que você planta você colhe.

O que é sucesso para você?

Sucesso é luta. Mas é preciso fazer do sucesso algo bom para a vida, porque se for algo que se deseja para passar por cima das pessoas, ou, simplesmente para aparecer, não faz sentido. Não é a pessoa que deve que brilhar, mas sim o trabalho, a história, a luta. Sucesso é não desistir. O que vier de fama é consequência da sua luta. Sei que um dia, talvez eu ande na rua e as pessoas me reconheçam como a Raquel do Giro, mas será uma consequência de tudo o que eu lutei. Mas eu piso em terra firme e, quando chegar lá, continuo sabendo de onde eu vim. E coloco tudo nas mãos de Deus.