“Escrever é uma profissão como qualquer outra. […] Tudo parte de você dar valor ao que faz. É possível ser bem-sucedido em qualquer área a partir deste princípio”, é o que diz Eldes Saullo, idealizador da Casa do Escritor, uma consultoria que ajuda escritores a publicarem suas obras de forma independente. Autor de 21 livros, ele garante que é possível ser um autor de sucesso sem se submeter às grandes editoras, mas afirma também que um dos maiores erros é acreditar que se sabe tudo e deixar de aprender. “’Por isso, estou sempre buscando novos conhecimentos sobre técnicas para escrever melhor, sobre como lançar melhor um livro, de vender mais, de alcançar mais leitores”. Mas, afinal, como ser um escritor?

O hábito leva à perfeição

Nesta entrevista super direta, Eldes compartilha sua experiência no mercado editorial e dá dicas preciosíssimas para quem quer ser um escritor. “As pessoas idealizam o ato de escrever. Ficam esperando a melhor época, o melhor lugar […] Mas ou você se senta pelo menos 15 minutos por dia para escrever ou não vai rolar”, resume ele.

Quanto ganha um escritor? O salário médio desse profissional é de R$ 3.564 por mês (Fonte: LoveMondays)

PC: Como você se tornou escritor? Pode me contar um pouco sobre a sua trajetória profissional até a criação da Casa do Escritor?

Todo mundo nasce escritor. Muitos não entram em contato com esse dom, mas se fizerem um esforço, pode ter certeza de que vão encontrar essa habilidade dentro de si. Costumo dizer que quem sabe falar, sabe escrever. No meu caso, escrevo desde criança. Gostava de escrever histórias em quadrinhos e peças de teatro para a escola. Mas abandonei o hábito para seguir a manada da vida e fui estudar publicidade e propaganda. Trabalhei em grandes agências, como a saudosa DPZ, e depois abri minha própria agência.

Em 2012, li uma frase do Mark Twain, que dizia que “os dois dias mais importantes da sua vida são o dia em que você nasce e o dia em que descobre o porquê”, e comecei a me fazer esta pergunta. Enfim, descobri que meu propósito era incentivar e motivar as pessoas a levarem suas histórias e experiências para o mundo. E depois de publicar alguns livros e dar cursos na área de escrita criativa, analítica e marketing literário – eu tinha lido muito e estudado sobre isso praticamente a vida inteira – fundei a Casa do Escritor.

PC: Escrever é quanto de inspiração e quanto de transpiração? Para quem tem a palavra escrita como profissão, é possível contar sempre com os lampejos criativos ou com a intuição?

Escrever é sentar-se na cadeira e soltar a mente, o coração e os dedos. E isso é um hábito. As pessoas idealizam o ato de escrever. Ficam esperando a melhor época, o melhor lugar, o melhor momento. Não funciona assim. Ou você se senta pelo menos 15 minutos por dia para escrever ou não vai rolar. Se não desenvolver o hábito da escrita, fica muito mais difícil. E como dizia Picasso, “se a inspiração vai me encontrar ou não, não importa, o importante é que ela me encontre trabalhando”. Para incentivar isto, acabei publicando “O Hábito da Escrita em 21 Dias”, meu livro que mais vende, e recentemente lancei o “365 Coisas Para Escrever Sobre”, para ajudar a inspirar as pessoas.

PC: A carreira de escritor é meio marginalizada no Brasil ou essa é uma visão superficial desse mercado? Há espaço no mercado para ser bem-sucedido como escritor?

Certamente uma visão superficial. Escrever é uma profissão como qualquer outra. Um médico, um engenheiro, um advogado, por exemplo, montam consultórios ou escritórios e partem atrás de clientes e pacientes. O escritor precisa fazer a mesma coisa. Não basta ficar só escrevendo, tem que partir atrás de leitores. Toda arte é um pouco marginalizada. Se a pessoa diz que quer ser escritor, músico, pintor ou seguir qualquer outro caminho artístico, recebe um monte de narizes torcidos. Tudo parte de você se dar valor e dar valor ao que faz. Você pode ser bem-sucedido em qualquer área se partir deste princípio.

PC: Dá para sobreviver escrevendo livros? Ou alimentar um blog é uma alternativa mais rentável?

Muita gente acha que vai publicar o primeiro livro, ganhar o Jabuti e estourar no ranking do New York Times logo no primeiro livro. Pode acontecer sim, mas isso é como ganhar na loteria. O segredo está em escrever muitos livros. Uma andorinha não faz verão e não existe escritor de um livro só, assim como não existe engenheiro de uma obra só. O sucesso da noite para o dia é árduo e pode levar anos. O caminho passa por não ser imediatista nem desistir se as coisas não acontecerem no tempo que você espera. Ser autor é um trabalho de construção de marca e de relacionamentos.

PC: Existe um caminho mais certeiro para quem quer ganhar dinheiro escrevendo? Por onde é mais seguro começar?

Escreva com amor ao seu leitor, transforme a vida dele, seja através de uma história, de um romance, de uma aventura, seja através do compartilhamento da sua experiência, assim como em um livro de negócios ou de autoajuda, da sua biografia. Por onde é mais seguro começar? Por hoje.

O escritor Eldes Saullo olha para longe. Ao fundo se vê um prédio refletido em uma janela

“O primeiro segredo para criar um best-seller é escrever um livro transformador”

PC: É muito difícil entrar no mercado editorial? Você enfrentou muitos desafios para lançar seus primeiros livros?

Hoje é muito mais fácil. Você mesmo pode se publicar e se promover. Não precisa se submeter às editoras. Eu nunca precisei de uma. Comecei como autor independente e é assim que vou seguir. Enfrentei e enfrento muitos desafios, mas procuro agir com eficácia e não com ansiedade. Creio que o maior desafio de qualquer profissão é você achar que já sabe tudo e ficar parado. Por isso, estou sempre buscando novos conhecimentos sobre técnicas para escrever melhor, sobre como lançar melhor um livro, de vender mais, de alcançar mais leitores. E descobri que a melhor forma de aprender é ensinar.

Por isso, compartilho esse conhecimento com outros autores através de meus livros, cursos online e da Casa do Escritor, que não é uma editora, mas sim uma consultoria e prestadora de serviços para autores que desejam a independência. Ela nasceu por consequência da procura de outros autores de poupar tempo, esforço e dinheiro nos desafios da publicação. Nos últimos três anos, eu ajudei 47 autores a passarem por este processo com mais suavidade.

PC: Você já tem mais de dez livros escritos e atualmente é um dos autores mais vendidos da Amazon Brasil. A que você atribui esse sucesso em um país que não tem o hábito de leitura?

São 21 livros já. E o 22º está a caminho, o primeiro Romance. Como disse anteriormente, é um trabalho de construção de marca e relacionamentos. É o que tenho feito desde que publiquei meu primeiro livro. Busco formas de fazer com que mais leitores me conheçam e de aprimorar a relação com cada um deles. Felizmente, as ferramentas digitais ajudam muito nisso.

PC: Em um de seus livros, você promete contar os segredos dos best-sellers. Pode compartilhar alguns dos segredos para ter um livro entre os mais vendidos?

O primeiro deles é escrever um livro transformador. Se o leitor fecha seu livro e não sente uma grande mudança em sua vida ou não passa a enxergar algo de maneira diferente, ou seja, se a consciência dele não se expande com a leitura, nenhum esforço de marketing vai transformá-lo em um best-seller. Escreva um bom livro, capriche na capa, porque um livro com uma capa amadora é um tiro no pé, capriche na produção, tenha uma estratégia de lançamento consistente e execute-a. O autor independente tende a se restringir ao seu círculo de parentes e amigos para vender seus livros, mas isto é um grande erro. Você precisa ir além.

PC: O que é sucesso para você? Considera-se bem-sucedido?

A definição de sucesso varia de pessoa para pessoa. Para muitos é ter o carro do ano, uma mansão. Para outros é poder andar descalço na praia ou no parque em uma segunda-feira à tarde. Sucesso, para mim, é não usar relógio e ter liberdade geográfica e de escolhas. Faço meu horário, posso trabalhar de qualquer lugar do mundo e escolher com quem quero trabalhar.