A responsabilidade de um psicoterapeuta vai muito além de ouvir, em silêncio, as angústias de seus pacientes. Para ser um bom profissional, é preciso, antes de tudo, conhecer a si mesmo. De acordo com o terapeuta psicocorporal Luciano Maresca, não basta conhecimento teórico e preparação técnica. “O terapeuta precisa se trabalhar. Visitar a própria história, compreender o que foi difícil e dolorido, olhar para as superações. E aí ele tem repertório para acompanhar as dores e as histórias das pessoas que recebe”, explica.

Como se tornar um psicoterapeuta?

Você sabia que para tornar-se um psicoterapeuta, a faculdade de psicologia não é o único caminho? A área é ampla e há várias linhas e abordagens possíveis. Além da formação clássica, há também cursos profissionalizantes que podem ser complementados com especializações e os cursos de formação em psicanálise. Mas como decidir qual é o melhor caminho? Nessa entrevista, Luciano dá dicas para quem quer seguir a carreira de psicoterapeuta, fala sobre o futuro do mercado de trabalho e conta como foi o seu percurso até tornar-se um psicoterapeuta corporal.

A trajetória de Luciano na profissão passou por caminhos pouco tradicionais. Com formação em administração de empresas e especialização em marketing, ele foi sócio de uma agência de comunicação e desenvolvimento humano por cerca de dez anos. Aproximou-se da psicoterapia por meio de uma pós-graduação em Semiótica Psicanalítica e de uma especialização em Psicologia Organizacional e descobriu o que realmente o fazia feliz. “Para mim, faz todo sentido trabalhar nos processos transformacionais das pessoas. Sinto que me conectei com o meu propósito, pois é algo que me toca e que, ao mesmo tempo, toca as pessoas.”

Hoje, Luciano utiliza a escuta psicanalítica aliada a um trabalho que integra o corpo, por meio de massagens, exercícios de respiração e outras técnicas. “Na época de Freud, a cura era pela palavra e pela interpretação de sonhos. Hoje, este recurso é ampliado com o trabalho corporal”, conclui.

Quanto ganha um psicoterapeuta? O salário médio desse profissional é de R$ 2.691,47 (Fonte: salario.com.br)

PC: Quais são os caminhos possíveis para tornar-se psicoterapeuta?

Minha formação é em psicoterapia com mediação corporal. É um pouco diferente da formação clássica em psicologia. Hoje existem várias linhas psicoterapêuticas. Um caminho possível é cursar a faculdade de psicologia e, então, fazer especializações; outro caminho é cursar formação em psicanálise e tornar-se um psicanalista; e outro caminho é o da psicoterapia corporal, que é uma escola mais recente, que integra o olhar da psicanálise com trabalhos de mediação corporal, como, por exemplo, toques, massagens, respirações… Então, eu diria que é um setting terapêutico mais ampliado, que conta com outros recursos além da palavra.

PC: A formação em psicoterapia corporal exige um curso superior, uma faculdade?

Não. Esse tipo de formação é considerado profissionalizante. Em algumas escolas é considerado como pós-graduação, em outras como curso de formação profissional.

PC: A sua primeira formação foi em publicidade?

Eu fiz administração de empresas e me especializei em marketing. Depois, fiz uma especialização em psicologia organizacional e outra em psicanálise e semiótica. Nesta, nós olhávamos muito para os sintomas da cultura e como eles articulam com a psicanálise. Decidi, então, fazer a formação em psicoterapia corporal no Centro Brasileiro de Formação em Análise Psico-Orgânica (CEBRAFAPO). Essa formação leva três anos e meio, com mais dois anos de supervisão. Então, eu diria que é quase uma formação superior, mas com escopo diferente. Não tem o viés universitário, mas capacita para atuar como terapeuta com esses instrumentos que comentei. Ou seja, além da escuta psicanalítica, tem um trabalho que integra o corpo.

Essas são escolas mais contemporâneas dentro da psicoterapia. O corpo vem chegando no setting terapêutico. Na época de Freud, a cura era pela palavra e pela interpretação de sonhos. Hoje, sim, este também é um recurso, que é ampliado com o trabalho corporal.

PC: Como você descobriu que a psicoterapia era o caminho que você queria seguir?

Inicialmente, fui para o caminho do empreendedorismo. Abri uma agência de comunicação e desenvolvimento humano. Atuei nessa empresa por cerca de dez anos. Só que, ao longo da trajetória, percebi que gostava do ambiente criativo, empreender sempre me desafiou, mas faltava um sentido. Muitas vezes, eu criava projetos e campanhas e me perguntava: “a serviço do que está esse projeto?” E, para muitos deles, eu não encontrava uma resposta que fizesse sentido para mim. Então, essa inquietação se transformou em uma crise e, no momento em que a empresa estava em pleno crescimento, senti que não era mais o meu caminho.

Nesse meio tempo, eu já tinha feito algumas formações nessa área de psico (a psicologia organizacional, a semiótica e a psicanálise) então, no fundo, eu sentia que meu caminho era esse. Trabalhar com pessoas, para as pessoas e, principalmente, nos processos transformacionais delas. Isso, para mim, fez todo o sentido. Eu senti que me conectei com o meu propósito. Algo que me toca e que, ao mesmo tempo, toca as pessoas. Então, entendo que se criou um elo de uma grande troca. À medida que eu me trabalho, posso, como terapeuta, levar o meu cliente até onde eu já percorri. Então, em 2012, fui planejando a saída da empresa. Eu tinha um sócio e fizemos um processo gradual de fechamento. Enquanto isso, ia abrindo espaço na minha agenda para começar a atuação como terapeuta.

PC: Como foi esse início como psicoterapeuta?

Comecei com o trabalho exclusivamente corporal, porque tinha acabado de sair de uma formação em terapia corporal ayurvédica. E eu diria que hoje, na minha clínica, integro essas várias escolas. Faço uma grande alquimia. Comecei atendendo um, dois, três clientes. Minha agenda foi tomando mais corpo, então pude sair um pouco mais da operação da agência e assim foi o processo.

PC: Quais são os principais desafios de lidar com as emoções das pessoas? Imagino que seja uma responsabilidade enorme…

Com certeza. É uma grande responsabilidade e exige um processo de trabalho interno do terapeuta. Então, mais do que método ou conceitos técnicos, o terapeuta precisa se trabalhar. Visitar a própria história, compreender o que foi difícil e dolorido, olhar para as superações. E aí ele tem repertório para acompanhar as dores e as histórias das pessoas que ele recebe. A competência técnica, o conhecimento também são fundamentais, além da prática. Junto de um profundo respeito por cada pessoa que chega, a história dela. Além disso, um olhar para a saúde, para a transformação e, não apenas, fixado na dor.

Nós transitamos pela dor, claro, e, por meio dela, abre-se um espaço de transformação e cura, para que o cliente possa dar passos. A neurose é a fixação, a repetição. Nós repetimos padrões, dores, dramas. A clínica psicoterapêutica vai convidar o sujeito a ir na direção da transformação. Não só do acesso a essa dor emocional, mas do que precisa ser visto.

Homem de barba, de braços cruzados e com a mão esquerda próxima ao queixo
“O que me move é observar os processos transformacionais e o potencial do ser humano para ir em direção à sua autenticidade”

PC: Com tantas linhas e abordagens que a psicoterapia permite, como um aspirante a psicoterapeuta pode começar sua busca? Por onde é possível entrar nesse universo?

De fato, hoje existem várias linhas, várias abordagens, vários caminhos possíveis. Por isso é tão importante se conhecer e compreender qual é a linguagem que tem afinidade com você e com o seu estilo. Tem pessoas mais articuladas em uma lógica, em uma racionalidade e, nesse sentido, a psicanálise é magnífica, é muito estruturada. Também existe essa abordagem mais corporal, que toca a fala e a linguagem, mas, ao mesmo tempo, abre a disponibilidade do contato com o corpo. Então, será que esse futuro terapeuta tem essa abertura interna? Qual é o caminho, a linguagem mais afim a ele? Será pelo corpo, pela palavra? Pela arte? A arteterapia também pode ser um caminho. Por isso, eu diria que o fundamental é que esse futuro terapeuta se conheça. Compreender aquilo que realmente o toca, o motiva e qual é a linguagem que tem o perfil dele.

PC: Quando você fala sobre se conhecer, você quer dizer por meio de terapia ou não necessariamente?

Para um terapeuta eu diria que é fundamental – repito, fundamental – passar pelo processo terapêutico. É praticamente impossível um terapeuta atuar se ele não tiver sido terapeutizado. Se ele não tiver enfrentado as suas dores, seus traumas, suas dificuldades. E, de fato, muitas escolas oferecem um conhecimento conceitual, teórico, mas não preparam o psicoterapeuta. É necessário percorrer todo um caminho de preparação desse sujeito, desse ser e não simplesmente aplicar um conjunto de métodos. Então, sim, deve-se olhar para si, e existem vários caminhos possíveis. Mas eu diria que a espinha dorsal é a terapia, o autoconhecimento.

PC: Têm-se falado muito que as profissões ligadas à psicologia e à psicoterapia são as profissões do futuro. Você concorda? Como você enxerga o futuro desse mercado de trabalho?

Sim, eu concordo. Hoje nós vivemos sintomas diferentes do que vivíamos há 50, 100 anos. O mundo mudou. Novas angústias emergiram. E, de fato, eu sinto que as pessoas estão em um limite emocional e psíquico. Então, mais do que nunca, é preciso esse autoenfrentamento e a clínica, como lugar que pode acolher o sofrimento e transformá-lo. Em um mundo cada vez mais digital e robotizado, penso que as relações humanas estão demandando esse contato profundo, esse contato olho no olho.

Então, acredito que esse trabalho será importante não só para fazer frente às angústias contemporâneas, mas também para ser esse lugar de um encontro significativo, o encontro de dois seres humanos. Isso tem se tornado raridade no nosso contexto atual. Por isso, concordo que o exercício do cuidar, do ser terapeuta vai ser muito necessário, por conta dessa demanda crescente e por falta de espaços para esses diálogos em um nível mais profundo.

PC: O que você sugeriria como ponto de partida para alguém que acaba de se formar? Como essa pessoa pode começar a busca por clientes, por exemplo?

Eu sugeriria uma primeira pergunta muito honesta: sinto-me preparado? Não tecnicamente, mas dentro da minha história de vida, sinto-me aberto e preparado para atuar? Tenho bagagem suficiente para sustentar o processo clínico? Em caso positivo, um caminho poderia ser a abertura de um consultório ou a locação de uma sala em um espaço já existente. Hoje existem muitas possibilidades, como salas avulsas, co-workings e, até mesmo, o atendimento online, via skype, ou outra plataforma. Caso esse futuro terapeuta não se sinta preparado, o caminho para que se sinta autorizado a atuar é iniciar uma psicoterapia, se ele ainda não fez, ou talvez buscar uma especialização…

PC: Quais são as características e habilidades que você considera fundamentais para ser um bom psicoterapeuta?

A capacidade de escuta, em diferentes níveis. Nós chamamos de escuta ampliada, pois ela vai além do conteúdo, escuta as emoções, o campo do cliente. Além disso, uma capacidade de não-julgamento, um olhar para além dos códigos do próprio mapa de mundo. Um gosto pelo ser humano, por trabalhar e estar com pessoas, e uma paixão por transformação. O que me move é observar os processos transformacionais e o potencial do ser humano para ir em direção à saúde, ao seu bem-estar, à sua autenticidade, a se tornar sujeito da própria vida e não objeto. Essas são características-chave. Além disso, uma boa formação e uma boa supervisão, poder contar com uma rede de apoio e supervisão, circular entre profissionais da área, trocar, crescer e aprender, sem dúvida, é muito importante.

PC: O que é sucesso para você? Você se considera um profissional bem sucedido?

Sucesso depende do contexto e do momento de vida. Eu não sinto que existe um modelo de sucesso, mas sim vários modelos dentro de uma própria vida. Ou seja, diferentes experiências de sucesso ao longo de uma trajetória profissional. E isso pode passar por vários quesitos: o sucesso financeiro, o senso de realização, de contribuição para o todo, para algo maior, além de você e da sua subsistência.

Acordar todas as manhãs com paixão por aquilo que se vai fazer. É claro que a vida não é linear e há momentos em que nós temos isso mais forte do que em outros. Hoje eu me considero um profissional de sucesso principalmente porque banquei abrir mão de muita coisa para sustentar algo em que acredito e que me realiza em um nível muito profundo. Eu me desenvolvo enquanto pessoa na atividade de psicoterapeuta e, claro, dentro de um processo de troca, eu também posso contribuir, acompanhar os meus clientes/pacientes nessa jornada.