Antes de mais nada, o advogado deve ser um grande conhecedor das leis. Não apenas para defender os direitos de seus clientes, como também para adverti-los. Mas as demandas da atualidade criam a necessidade de uma nova maneira de atuar. O número de processos nos tribunais brasileiros tem aumentado consideravelmente, o que exige do advogado um papel muito mais preventivo. Assim, o Direito moderno pede novas habilidades desse profissional. “Além de toda a técnica jurídica, o advogado precisa ter o dom de lidar com pessoas. Se não conseguir convencer a pessoa de uma ideia de forma que ela queira ouvir, você não vai ter êxito no trabalho”, explica Leonardo Ward Cruz, fundador da Ward e Toledo Piza Advogados.

Um profissional do Direito moderno

Nessa entrevista, Leonardo Ward Cruz conta como sua trajetória culminou na abertura de sua empresa. Foi voluntário no gabinete de um juiz, atuou em pequenos e grandes escritórios, tornou-se funcionário público. Abriu mão de grandes salários e, com humildade, foi bater à porta de conhecidos, em busca de clientes. Mas seu espírito empreendedor e um olhar para o bem-estar emocional de seus clientes, o levou a idealizar um modelo de negócios que tivesse a ver com suas convicções. “Eu queria criar um escritório de advocacia que tivesse um diferencial. Hoje nós usamos a conciliação para solucionar conflitos”, conta.

Confira a entrevista completa a seguir e saiba muito mais sobre a profissão de advogado e como ela pode transformar o Direito moderno.

Quanto ganha um advogado? O salário de um profissional de nível sênior gira em torno de R$ 8.720 (Fonte: Glassdoor)

PC: Como você chegou até o momento profissional em que se encontra hoje?

No último ano da faculdade, 2008, comecei um estágio em um escritório grande chamado Siqueira Castro, onde atuava na área cível, com direito do consumidor. No final do curso, tinha que conciliar o estágio, o trabalho de conclusão de curso e os estudos para a prova da OAB. Decidi, então, ir para um escritório menor, com uns 15 funcionários. Me formei em 2008 e passei na OAB. Nessa época, participei de um processo seletivo super burocrático para a PricewaterhouseCoopers, uma multinacional de auditoria e consultoria. Passei e comecei a trabalhar com direito tributário.

Em 2010, fiz pós-graduação em processo civil na PUC, ao mesmo tempo em que trabalhava na Price. Um dos professores me disse que ia virar juiz substituto em segundo grau, uma espécie de desembargador. Ele estava montando uma equipe e me convidou para fazer parte. Eu viraria funcionário público, com um cargo indicado, comissionado. Saí da Price, uma multinacional aberta ao mundo, para virar funcionário público do Tribunal de Justiça de São Paulo. Fiquei lá por cerca de dois anos. Quando chegou o final do segundo ano, eu estava muito infeliz. O trabalho era muito monótono, exclusivamente intelectual. Nesse meio tempo, um amigo empresário disse que estava precisando de um advogado, pediu indicações e eu me ofereci para trabalhar com ele.

PC: Algumas pessoas achariam loucura sair de um emprego relativamente estável e bem remunerado para ganhar bem menos. O que te motivou a fazer isso?

Todos os lugares por que passei, fui testando para ver o que realmente me fazia feliz. Como funcionário público, todo mês pingava aquele salário na minha conta. Mas, por outro lado, estava preso àquilo. Ganhava, na época, 12, 13 mil reais, e saí para ganhar dois e meio. Voltei a trabalhar em escritório pequeno, mas sabia que tinha possibilidade de crescer. Tenho uma cabeça meio de empreendedor, queria ter meu próprio negócio e me desenvolver cada vez mais. Decidi, então, ir atrás de clientes. Fiz uma lista de todas as pessoas que eu conhecia e comecei a buscar, bater na porta das pessoas. Comecei com um cliente só e, em pouco tempo, tinha conseguido uma carteira muito boa de clientes. No meio do ano, eu já tinha ganhado o dobro do que eu ganhava no tribunal.

PC: E quando decidiu que era o momento de fundar seu próprio escritório?

Fiquei dois anos e meio nesse escritório, mas chegou uma hora em que não estava mais valendo a pena. Fundei o Ward e Toledo Piza em janeiro de 2016 com meu sócio Renato de Toledo Piza.

Leonardo Ward ao lado do sócio Renato de Toledo Piza

PC: Como você buscou se diferenciar de outros escritórios de advocacia quando fundou a Ward e Toledo Piza?

Eu acredito que a maneira como eu atuo hoje reflete até mesmo minha trajetória de vida. Fui pai muito jovem, tive que amadurecer muito cedo. Por isso, hoje, eu tento evitar o litígio o máximo possível para tentar solucionar conflitos. Por exemplo, recentemente atendi uma mulher que queria se separar do marido e chegou até mim super bélica. Eu conversei com ela, aconselhando que talvez uma briga judicial não fosse o melhor para os filhos dela. Sugeri que tentássemos resolver consensualmente com o marido, conversar e explicar como funciona. Tudo isso, visando o bem das crianças. Eu acredito que essa postura acaba até fidelizando o cliente.

PC: É interessante o quanto o advogado pode ajudar a resolver situações judiciais de maneira mais harmônica. Que características o advogado moderno deve ter que vão além do Direito?

O que vai além do Direito é muita leitura sobre psicologia humana e como é o relacionamento humano em si mesmo. O advogado, além de toda a técnica jurídica, precisa ter o dom de lidar com pessoas. Se não conseguir convencer a pessoa de uma ideia de forma que ela queira ouvir, você não vai ter êxito no trabalho, principalmente nessa solução primária.

Quando uma pessoa procura um escritório de advocacia, ela já está com a cabeça focada em briga. Então a gente acaba tirando esse pensamento primário. E, tudo isso, sempre visando a dignidade da pessoa humana. Porque quando se entra em um litígio, pode até ganhar, mas, em uma guerra, o vencedor também pode acabar sem um braço, sem uma perna, então o cliente pode acabar machucado. A arte de advogar no mundo de hoje inclui convencer as pessoas de que o modo menos bélico é o mais fácil para atingir a felicidade e o bem de cada um.

PC: Essa forma conciliadora e até preventiva de atuar no Direito não é considerada a mais lucrativa por muitos profissionais. Como você avalia o impacto disso nos negócios?

Eu discordo. A princípio, pode não ser a forma mais lucrativa de atuar. Mas, a longo prazo, é muito mais lucrativa, porque a pessoa que você convenceu de que o consenso é a melhor solução para o conflito, acaba sendo fidelizada. Ela chega até nós com o espírito de briga, nós a convencemos e resolvemos o problema, então ela acaba voltando. Ganha-se a confiança do cliente. Inflamar o cliente, dizer que se ele não entrar com tais e tais processos vai acabar perdendo algo é muito mais fácil e, por isso, muitos profissionais agem dessa forma. Mas, no nosso entendimento, não é a solução mais sadia para a pessoa. Por isso, a insistência nessa solução extra judicial para acabar com o conflito.

PC: Essa pode ser considerada uma forma moderna de advogar? Você acredita que a conciliação é uma tendência para o futuro da profissão?

Sim. Inclusive, no novo código civil, elaborado em 2015, existe uma série de normas sobre mediação e arbitragem. É o modo moderno de advocacia, com certeza. Até porque os tribunais estão extremamente cheios de processos, são milhões que ingressam diariamente. Por isso, a mediação pode ser um caminho para todos os novos profissionais da área.

PC: No início da sua carreira, você teve que buscar clientes para ter sucesso profissional. Que conselhos você pode dar nesse sentido para quem está começando?

O principal de tudo para quem quer buscar clientes e empreender na advocacia é a humildade de bater na porta das pessoas que você conhece e pedir uma oportunidade para mostrar seu trabalho. Esse é o principal fator para se ter um futuro promissor. Porque, muitas vezes, com uma única oportunidade, se tem humildade, você consegue mostrar seu trabalho.

PC: O que é assessoria jurídica preventiva?

A assessoria jurídica preventiva é um contrato. É a elaboração de contratos para prevenir eventuais brigas no futuro. Uma vez, escrevi um artigo sobre a informalidade do mercado publicitário. Tudo é muito verbal e depois fica difícil buscar o direito que foi adquirido. Acontece muito de as pessoas procurarem advogado só depois que o problema já aconteceu. É muito comum e acaba sendo mais burocrático, mais complicado e, o pior de tudo, mais caro. Por isso, nós focamos no preventivo. Mas o Brasil não tem essa cultura, embora estejamos passando por um processo de mudança nesse sentido. Só que, infelizmente, ou felizmente, o fato de as pessoas não pensarem de forma preventiva acaba dando problema.

PC: Talvez felizmente para os advogados…

Não só para os advogados, mas para todos os operadores do Direito. Porque se não existissem problemas, o Direito não existiria. Então, não é só pensando no Direito, mas em todos. Se não houvesse sonegação de impostos, não haveria fiscais, se não houvesse conflitos, não haveria a necessidade de juiz.

PC: Talvez por isso, mesmo com todas as mudanças que o mercado de trabalho, no geral, vem sofrendo na atualidade, as profissões que envolvem o Direito não devem morrer…

Eu acredito que, no futuro, a advocacia de massa, vai ser muito robótica, acredito que vão haver duas ou três teses que o robô vai acabar fazendo. Tem muita gente defendendo que a advocacia vai acabar, mas eu acredito que não, porque esse contato pessoal e o problema único de cada pessoa vai ter que ser solucionado por outra pessoa e não por um comutador. Se não, o código não teria mais de mil artigos. Eu acredito que a advocacia, especialmente a que fazemos aqui, que é mais personalizada, não vai acabar tão cedo.

PC: O que é sucesso para você? Considera-se bem-sucedido?

Sucesso é felicidade no trabalho. É acordar e ir para o escritório com satisfação. Não se sentir feliz só quando chega a sexta-feira. Aquela publicação comum na sexta me deixa desgostoso pelas pessoas que não são felizes o resto da semana. No domingo, eu vou dormir feliz pensando na minha semana, no que eu preciso resolver. Sucesso é isso. Não é reflexo de muito dinheiro no bolso, acredito que o sucesso está dentro de cada um. É estar feliz com o que você escolheu, e ter realmente escolhido e não deixado a vida levar.