A fisioterapia é, certamente, uma das profissões mais interessantes da área da saúde. Afinal, o fisioterapeuta atua – entre outras coisas – no tratamento de lesões como fraturas e torções, por meio de exercícios, massagens e diversas técnicas, com o intuito de acelerar a recuperação dos pacientes. Esse profissional é um profundo conhecedor do funcionamento do corpo humano, especialmente, dos ossos, nervos e articulações. Ele sabe como estimular as estruturas físicas para promover resultados efetivos e seguros, mesmo diante de quadros graves.

Mas, além de conhecimento técnico, um bom fisioterapeuta deve ter empatia e estar aberto a conhecer e compreender o outro. “Fisioterapia é um processo. Há início, meio e, em muitos casos, não há fim. Nesse processo, há uma interação e um aprendizado mútuos. Nós, como profissionais, aprendemos muito com cada paciente”, comenta Martim Pinto, que hoje atua como fisioterapeuta neurofuncional.

Mas o que é, afinal, a fisioterapia neurofuncional?

Embora a carreira em fisioterapia seja relativamente ampla, nessa entrevista vamos focar na fisioterapia neurofuncional e conhecer seus desafios de oportunidades. “A fisioterapia neurofuncional é a área que promove a reabilitação funcional nos casos de danos no sistema nervoso, cérebro, medula e outros eventos que abrangem a área neurológica”, explica Martim. Conheça mais sobre a profissão a seguir.

Quanto ganha um fisioterapeuta neurofuncional? O salário desse profissional é, em média, R$ 2.215,14 (Fonte: Salário.com.br)

PC: Quando e por que você decidiu ser fisioterapeuta?

Em 1999, trabalhava na área de Propriedade Intelectual. Eu era assistente do setor jurídico e internacional de uma empresa de marcas e patentes. Entre minhas funções diárias, eu fazia o acompanhamento do processo para registro de marcas de clientes brasileiros no exterior e de clientes estrangeiros no Brasil, edição/revisão de notificações extrajudiciais, correspondências… Eu gostava muito do que fazia, no entanto, minha rotina resumia-se na relação com papéis. Lembre-se que no início dos anos 2000, não havia smartphones, reuniões por Skype, etc., a tecnologia era bem diferente (o mundo e a sociedade tinham outras necessidades), e muitos procedimentos ainda eram realizados à base de papéis e telefone.

Assim, senti a necessidade de viver uma nova experiência profissional que estivesse relacionada à saúde, de maneira que envolvesse o corpo físico e a área psicológica de um ser humano. Ingressei no curso de fisioterapia em 2001, me formei em 2004, e durante 2005 fiz especialização em fisioterapia neurofuncional na Santa Casa de São Paulo (diga-se de passagem, minha grande escola no setor técnico e humanístico).

PC: O que é fisioterapia neurofuncional? Por que você se especializou nessa área?

A fisioterapia neurofuncional é a área que promove a reabilitação funcional nos casos de danos no sistema nervoso, cérebro, medula e outros eventos que abrangem a área neurológica. Como exemplo de casos tratados, posso citar doença de Parkinson, esclerose múltipla, AVC, traumatismo cranioencefálico, entre outros.

A minha identificação com essa área deu-se quando iniciei a disciplina de neuroanatomia, pois vi na fisioterapia neurofuncional o elo entre o físico, o emocional e o comportamental. Evidente que nas outras especializações há o mesmo elo, no entanto, a neurofuncional pareceu-me instigadora, pois lidamos com pessoas com doenças sem cura (mas não só!) e com diversas situações em que o comportamento diário da pessoa interfere positiva e negativamente no tratamento. Fisioterapia é um processo. Há início, meio e, em muitos casos, não há fim. E nesse processo, há uma interação e um aprendizado mútuos. Nós, como profissionais, aprendemos muito com cada paciente. Penso que todo ser humano tem uma história de vida interessante. Como passamos certo tempo com cada paciente, frequentemente dá-se uma relação de confiança e aprendizado mútuo.

PC: A área de fisioterapia parece vasta. Afinal, em que campos esse profissional pode atuar, além da fisioterapia funcional?

A área de fisioterapia cresceu muito. Nas décadas de 80 e 90, a fisioterapia era relacionada à massoterapia pelo senso comum. Não se sabia ao certo o que um profissional dessa área fazia. Na minha opinião, algumas ações impulsionaram o desenvolvimento da área. Posso citar a criação da rede Sarah Kubitschek (pelo presidente Juscelino Kubitschek), a rede AACD, o TELETON e, atualmente, a Rede Lucy Montoro. Soma-se a isso a autoestima e a valorização interna dos profissionais (diga-se de passagem, penso que está em processo também).

O fisioterapeuta atua na prevenção e na reabilitação (tratamento). Podemos atuar nas especializações (ortopedia, neurofuncional, desporto, dermato, cardiorrespiratória, etc.) em hospitais, clínicas, espaços de saúde, consultório e empresas (saúde ocupacional).

PC: Certamente você já lidou com casos de reabilitação muito desafiadores…

Todo caso em neurofuncional é desafiador. A doença pode ser a mesma, as técnicas também, mas o tratamento não é igual. Cada pessoa age e reage de maneira singular, logo, uma sessão ou tratamento não é igual a outra, ainda que usemos os mesmos procedimentos.

Eu tive vários casos que desafiaram não só o conhecimento técnico quanto a habilidade emocional exigida. Com o passar do tempo, o repertório de experiências aumenta, mas sempre aprendemos! São várias histórias!

PC: Só para exemplificar, pode compartilhar alguma dessas experiências marcantes da sua atuação na fisioterapia neurofuncional?

Uma delas ocorreu durante a especialização. Eu fazia atendimentos no ambulatório, na enfermaria e na UTI.

Na enfermaria havia três crianças com doenças raras. Duas delas com a síndrome de Werdnig Hoffman, caracterizada pela ausência de movimento funcional (isto é, movimento que tenha alguma função) em todos os músculos do corpo, mas o intelecto íntegro. Traduzindo: corpo sem movimento com inteligência e compreensão íntegras.

Houve uma identificação e afeição entre mim e uma delas, o Sérgio, ou, para nós, apenas Serginho (de 6 anos). Como profissional, tinha que promover reabilitação em um corpo em condições desfavoráveis ao bem-estar. Ele (assim como os outros dois) nunca tinham saído do hospital. Nasceram e lá ficaram. Alimentavam-se por sonda e nunca tinham sentido o gosto de qualquer alimento. Mas o intelecto estava perfeito, rápido, astuto.

Toda aquela situação mexeu com o meu interior, pois queria proporcionar o melhor possível, mas havia um limite dado pela ausência de movimento e pela necessidade de aparatos como sondas, traqueostomia, sensores, etc. Mesmo traqueostomizado, conversávamos, nos entendíamos, e entre um intervalo e outro de um exercício, eu aproveitava para ensinar os números em inglês a ele. Era um prazer estar com ele. Mesmo dentro de um corpo pequeno, foi um grande professor para mim. E certamente para todos que passavam por aquele leito.

PC: Que lições você pode compartilhar como resultado do que aprendeu com ele?

Minha lição ali estava relacionada à percepção positiva de nossa dinâmica de vida ainda que em situações que contrastam com o nosso bem-estar e alegria. Por mais que estejamos vivendo (com gerúndio mesmo… risos) uma situação oposta ao que desejamos, temos que ativar a nossa força interior e ampliar a nossa percepção de que a nossa vida é muito maior do que o momento. Embora veja toda situação como um aprendizado.

“Vejo na fisioterapia funcional o elo entre o físico, o emocional e o comportamental”

PC: Trabalhar com a saúde humana traz grande responsabilidade e, além disso, exige preparo psicológico. Como você trabalha a mente para não deixar que um quadro difícil afete o seu julgamento profissional?

É necessário ter educação emocional/mental para a preservação do seu bem-estar. Penso que esse comportamento é um processo que conquistamos ao longo do tempo.

PC: Quais são as habilidades que você acredita serem fundamentais para se sair bem na fisioterapia neurofuncional?

– Compreender a realidade, prioridades e necessidades de cada pessoa;

– Planejamento (metas a curto, médio e longo prazo);

– Inovação (propor melhorias, alternativas).

PC: Como é o mercado de trabalho para os fisioterapeutas? O profissional é valorizado no meio? Quais são, portanto, as perspectivas de futuro para a profissão?

O mercado de trabalho nessa área mudou. Antes, na sua maioria em hospitais, em clínicas. Atualmente muitas vagas estão direcionadas à home care [atendimento domiciliar]. Nas instituições de saúde (hospitais e clínicas), os fisioterapeutas estão sobrecarregados. Poderia haver maior número de contratações nessa área. Mas o que ocorre é que um profissional fica sobrecarregado pelo número de atendimentos que tem que realizar por dia de trabalho. Acredito que isso aconteça devido à redução de custos que a maioria das organizações vive.

A valorização é inquestionável no meio de reabilitação. Entretanto, isso não se aplica à valorização monetária.

Para mim, as perspectivas estão associadas à robótica. É uma área que tem se desenvolvido cada vez mais. Máquinas/robôs que auxiliam a realização de movimentos, softwares que facilitam e agilizam avaliações, bem como pesquisas científicas acontecendo em todo o mundo.

PC: O que é sucesso para você?

Para mim, o sucesso está relacionado à autorrealização. O sentimento de se sentir realizado com o que você faz no momento. Não importa se é o seu trabalho, profissão ou cargo, mas necessariamente você se sentir bem no que realiza. Soma-se a isso, as emoções alegria, satisfação e bem-estar proporcionadas pela sua atuação (no seu ramo profissional ou não).

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