Reinaldo Polito é uma referência quando o assunto é oratória. Mestre em Ciências da Comunicação, ele ensina a arte de falar em público com desenvoltura há mais de 40 anos. É provável que você já tenha lido alguma das 31 obras que ele escreveu (afinal, são mais de 1 milhão de exemplares vendidos) ou tenha assistido uma de suas aulas no quadro Olha quem fala, do Fantástico (exibido pela Rede Globo, em 2017). Também pode ser que tenha concordado com suas análises sobre a oratória de figuras públicas em sua coluna semanal no UOL.

Mas, embora hoje Reinaldo seja capaz de “hipnotizar” qualquer audiência por meio da retórica, seus desafios na comunicação se iniciaram muito cedo, quando ainda começava a descobrir o mundo das palavras. “Com pouco menos de dois anos fiquei traumatizado por causa de um incêndio. Como consequência das queimaduras no corpo, fiquei mudo, e só voltei a falar depois de um bom tempo, mas muito gago”, relembra. Para ajudar na recuperação da fala, seus pais lhe ensinaram versinhos que ele recitava nas festas da escola. “Os professores incentivavam, os coleguinhas aplaudiam e eu passei a gostar de falar em público”, conta o professor.

Hoje, graças a Polito, centenas de pessoas – inclusive famosos como o ex-tenista Fernando Meligeni, a atriz Carol Nakamura, a apresentadora Sabrina Sato e o político Roberto Jefferson – ampliaram sua capacidade de comunicação com o uso de técnicas aprendidas em seus cursos. Para o professor, qualquer pessoa é capaz de desenvolver essa capacidade e isso traz benefícios que vão além do âmbito profissional. “Quem se apresenta bem em público é uma pessoa mais livre, mais confiante e muito mais bem relacionada.”

PC: Você tem uma trajetória profissional nacional e internacionalmente reconhecida. Qual é, na sua visão, o “segredo” para ir longe em qualquer profissão?

Penso que cada um deve perseguir o sonho de encontrar uma profissão pela qual se apaixone e à qual sinta prazer em se dedicar. A minha experiência demonstrou que a realização desse sonho depende de vocação, preparo, oportunidade, sorte e muita dedicação. De nada adianta se preparar se não existir vocação.  A oportunidade talvez não seja percebida se não houver preparo. A sorte só mostrará sua face diante da oportunidade.  A dedicação só será produtiva se a sorte indicar o caminho. Esse é o segredo. Somente a conjugação de todos esses ingredientes fará com que uma pessoa vá longe na sua profissão.

PC: Pode me contar um pouco sobre como foi o seu início profissional? Você sempre teve habilidade para falar em público?

Quando era menino, com pouco menos de dois anos, fiquei traumatizado por causa de um incêndio. Como consequência das queimaduras no corpo, fiquei mudo, e só voltei a falar depois de um bom tempo, mas muito gago. Seguindo orientação médica, os meus pais me ensinaram alguns versinhos infantis para recuperar a fala normal. Em Araraquara, minha cidade natal, no curso primário, passei a fazer o que havia aprendido durante o tratamento – nas festinhas de final de ano, ou comemorativas eu recitava as poesias. Os professores incentivavam, os coleguinhas aplaudiam e eu passei a gostar de falar em público.

Em São Paulo, conheci a escola de oratória do professor Oswaldo Melantonio. Fiquei tão entusiasmado com sua didática que ele, percebendo o brilho nos meus olhos, me convidou para ser o assistente dele. Lá permaneci por sete anos, aprendendo a falar em público e a ensinar oratória.

PC: Quando e por que decidiu se especializar nessa área? Quando percebeu que era esse o universo no qual você queria se aprofundar?

Por dez anos, de 1975 a 1985, exerci duas atividades simultaneamente: durante o dia atuava no mercado financeiro e à noite e nos finais de semana dava aula de oratória. Até que percebi que a paixão pela oratória me envolvia totalmente. Tomei a decisão de abandonar o mercado financeiro para me dedicar exclusivamente ao ensino da arte de falar. Decidi mesmo gostando muito de trabalhar no mercado financeiro e sabendo que ganharia apenas metade do que ganhava. Com essa dedicação exclusiva, foi possível construir a maior estrutura para o ensino de Expressão Verbal do mundo. Hoje, 44 anos dedicados a essa atividade, sinto a mesma empolgação que senti quando fui pela primeira vez assistir a aula do professor Melantonio.

Desde então passei a publicar meus livros. São 31 livros editados, com mais de um milhão e quatrocentos mil exemplares vendidos, sendo que seis deles entraram para as listas dos mais vendidos do país. A maioria das obras foi publicada em diversos países.

PC: Você ensina a arte da oratória para diversos públicos há mais de 40 anos. Quais eram as demandas de comportamento e comunicação do mercado de trabalho há 40 anos e o que se exige hoje dos profissionais?

Há três ou quatro décadas, apenas algumas atividades se interessavam pelo uso da palavra em público. Eram os advogados, políticos, pregadores e professores. Hoje, praticamente todas as atividades exigem essa competência. A partir do cargo de supervisor, o profissional precisa participar de reuniões, apresentar projetos, participar de processos de negociação. Se não tiver boa comunicação, poderá ser prejudicado em sua carreira. Sem contar também que quase todas as profissões liberais dependem da boa comunicação para serem bem exercidas.

“Se não tiver boa comunicação, o profissional poderá ser prejudicado em sua carreira”

PC: Você ajuda pessoas famosas e anônimas a desenvolver a habilidade de falar em público. Quais são os principais desafios que você encontra para realizar o seu trabalho?

O segredo está em descobrir qual é a característica do aluno. E a partir dessa descoberta desenvolver as habilidades de comunicação sem que ele perca sua naturalidade. Quando o aluno consegue aplicar a técnica, preservando suas características pessoais, desenvolverá o melhor nível de comunicação que poderia aspirar. O objetivo é que a pessoa termine o treinamento falando com segurança, desenvoltura e competência.

PC: Gostaria de saber mais sobre o seu trabalho na Via de Acesso.

Sou presidente da ONG Via de Acesso há 16 anos. Fazemos capacitação de jovens para que ingressem no mercado de trabalho. Já inserimos 500 mil jovens nas mais diferentes empresas do país. Cuidamos especialmente do aspecto comportamental – como falar, como escrever, como se vestir, como tratar os colegas, superiores hierárquicos. Enfim, como usar o bom comportamento para que possam explorar de maneira mais ampla e completa suas competências. Para isso, ministramos cursos com frequência, promovemos palestras e treinamos os supervisores de estágio. Essas atividades são gratuitas. Todo ano, no mês de junho, promovemos o maior e mais importante fórum de carreira do país. Chegamos a receber mais de 12 mil inscrições para esses eventos – também totalmente gratuitos. É um trabalho voluntário muito gratificante.

PC: Quais foram os principais aprendizados que você adquiriu ao longo dos anos, trabalhando com uma diversidade enorme de públicos, de políticos a estudantes?

Aprendi que todas as pessoas, sem exceção, conseguem desenvolver bem sua capacidade de comunicação. Basta que identifiquem suas características pessoais e apliquem as técnicas adequadas à sua maneira de ser. Tomei consciência também de que a comunicação bem desenvolvida pode ser sinônimo de felicidade. Quem se apresenta bem em público é uma pessoa mais livre, mais confiante e muito mais bem relacionada.

PC: O que é sucesso, na sua concepção?

Sucesso é fazer o que a pessoa gosta de fazer, com competência, paixão e muita alegria. Há pessoas bem-sucedidas completamente desconhecidas. Há pessoas muito conhecidas, famosas, mas que não se sentem felizes com o que fazem.