Veja se essa profissão é para você!

De fisioterapeuta a comissária de bordo, a trajetória profissional de Ivy Leme Portilho foi marcada por dúvidas, tentativas e muito empenho, mas valeu a pena: aos 32 anos, ela sente-se realizada e garante que para ter sucesso basta se propor a trabalhar com todo o coração.

Mas é claro que a busca da paixão profissional passa por auto conhecimento e, muitas vezes, é preciso ir além da preparação básica que os cursos de aviação oferecem.

O conhecimento avançado de inglês ajudou Ivy a migrar dos voos nacionais para os internacionais em menos de dois anos.

Em uma conversa cheia de entusiasmo, ela compartilha os “segredos” para ingressar na carreira e deixa claro que valeu a pena começar do zero em uma nova profissão, pelo prazer de fazer o que gosta.

“Para quem é jovem, solteiro e está começando, essa é uma área maravilhosa, com remuneração muito boa e ótimas oportunidades de conhecer novos lugares e pessoas. É uma carreira que pode abrir muitas portas.”

PC: Por quanto tempo você atuou como fisioterapeuta?

Depois da faculdade, abri uma clínica em Piracicaba, onde eu morava. Minha sócia e eu optamos pela área de estética dentro da fisioterapia, por ser a mais rentável, além de ser a área que nós mais gostávamos.

Eu fazia mais atendimentos na parte de alívio de dor, massagens de relaxamento, fiz uma especialização em acupuntura.

Mas tínhamos ultrasson, manthus, eletroterapia, drenagem linfática, depilação a laser, etc. Fiquei na clínica por três anos e meio.

PC: Como foi a mudança para a área da aviação e como você planejou essa transição?

Eu não planejei. Quando me casei, meu esposo se mudou para Piracicaba, mas a parte profissional dele acabou não dando certo, então fomos para São Paulo.

Esse foi o principal motivo para eu ter saído da fisioterapia, embora eu já estivesse bem esgotada, até por ser um negócio próprio.

Não fazia ideia do que queria fazer, cheguei a fazer entrevistas na área de fisioterapia mesmo, me interessava por fotografia e procurei workshops, fiz alguns ensaios newborn, tentando buscar algo de que eu gostasse.

A aviação sempre fez meus olhos brilharem, tinha curiosidade desde criança, admirava, mas achava algo muito distante de mim.

Não sabia qual era a formação necessária, nem como funcionava.

Um dia, andando perto da minha casa, vi uma escola de aviação anunciando um curso de aeromoças e tive um estalo.

Um tempo depois, resolvi ir até lá e eles me explicaram que precisava ter o ensino médio, ser maior de 18 anos, etc. Pesquisei muito e decidi fazer um curso intensivo de dois meses, fiz a prova da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) e passei.

PC: Como foi o processo seletivo da companhia aérea em que você atua hoje? O curso de aeromoças foi suficiente para te preparar ou você fez outros cursos?

A aviação, de modo geral, é muito exigente, rigorosa, segue muitas regras e hierarquias. A escola era bastante exigente com o horário, com apresentação, etc.

Na hora do intervalo, cada dia uma pessoa tinha que servir o café, montar e servir todo mundo, da sala a recepção. Isso já era um treinamento para aprender a servir o próximo, ter simpatia, cordialidade.

Todo dia tinha vistoria: checavam cabelo, maquiagem, unha, tamanho da saia, meia-calça, tamanho do salto.

Não podia chegar atrasada de maneira alguma, se não, não entrava. Na aviação é exatamente assim.

O fato de ter feito faculdade me ajudou, porque eu já estava acostumada com a rotina pesada de estudo e provas. Mas era muito inexperiente em processos seletivos de empresas, então procurei um curso preparatório para processos seletivos de companhias aéreas.

E foi fundamental para me sentir mais segura durante as entrevistas.

PC: Quanto tempo depois da conclusão do curso você foi chamada para o processo seletivo?

Quatro meses. A empresa estava em expansão, por isso foi tudo muito rápido.

Fiz o processo em duas fases: a primeira teve provas, com testes de raciocínio lógico, conhecimento gerais, etc., tinham muitos candidatos participando, pessoas de outros estados, inclusive.

Na mesma semana, recebi a resposta de que tinha passado para a segunda fase, que seria uma entrevista pessoal com uma psicóloga.

Teve também uma dinâmica de grupo, prova de inglês e exame médico.

Sei que hoje o processo de seleção está bem mais rígido, com redação e provas mais específicas sobre aviação.

PC: Como é a sua rotina como comissária de bordo?

Não existe rotina de horário. Eu não consigo me programar, por exemplo, para fazer um curso toda segunda e quarta, preciso me adaptar muito aos horários de trabalho.

Mas existe uma rotina rígida dentro do avião, temos que fazer tudo sempre igual. Muitas pessoas reduzem a profissão do comissário ao serviço de bordo do avião, mas, na verdade, toda a nossa formação e treinamentos visam a segurança.

O comissário é um agente de segurança. Por isso, passamos checando se todos estão com o cinto, verificando a localização das bagagens, pedindo para ajustar as poltronas.

Estamos preparando a cabine para uma evacuação, caso haja uma emergência no pouso.

Hoje, minha escala é internacional, então faço menos voos no mês, mas pela nossa regulamentação, podemos ficar até seis dias em jornada, dormindo cada dia em um local.

E, claro, fazemos o serviço de bordo, atendemos às necessidades dos clientes dentro do avião, levando conforto, tranquilizando as pessoas que têm medo de voar. Temos que manter o equilíbrio para que o voo seja tranquilo.

PC: Você leva alguma habilidade ou conhecimento da fisioterapia para a sua atuação na aviação?

Minhas experiências anteriores em atendimento me ajudam muito. As duas profissões – a de fisioterapeuta e a de comissário de bordo – se resumem em atender o próximo e buscar o bem-estar, o conforto.

Eu uso muitos aprendizados e experiências que tive com a fisioterapia. Inclusive já fiz massagem em colegas que têm dores.

Os conhecimentos da área da saúde também são importantes para mim, no avião, porque temos treinamento de primeiros-socorros.

Se acontecer uma emergência e o cliente precisar de atendimento médico, nós também estamos preparados, na medida do possível.

PC: Quais são as principais características que uma pessoa que deseja ser comissária de bordo deve ter?

É fundamental gostar de atender, ser gentil, ter muita paciência. Uma característica muito marcante na aviação é que a equipe nunca é a mesma.

Cada voo tem uma tripulação diferente, por isso, é preciso ser flexível, ter jogo de cintura. É preciso saber relevar, cumprir ordens e seguir hierarquias.

Também não pode ser muito apegado – nem à própria cama nem aos colegas de trabalho – tem que gostar desse dinamismo de dormir fora, conhecer lugares novos, colegas novos, não se importar em comer em qualquer lugar e o que tiver.

E ser desapegado de rotina, porque em alguns dias temos que dormir de dia para voar a noite inteira. E, finalmente, é imprescindível ser pontual.

PC: Como está o mercado de trabalho para esta profissão?

2018 foi um ano difícil de modo geral, especialmente para o Brasil. Esses dias saíram notícias de que a Avianca entrou em recuperação judicial.

A TAM juntou com a LATAM e reduziu o quadro de funcionários.

A companhia aérea em que eu trabalho, embora tenha segurado as contratações esse ano, fala em dobrar de tamanho nos próximos dez anos. Por isso, acredito que ainda vá contratar muita gente.

E sempre vai ter lugar para quem persiste e se destaca. Quem tem esse sonho tem que estudar, se preparar, porque a hora chega.

Eu aconselho a estudar inglês e outras línguas, fazer o curso de comissário e ficar com a licença da ANAC pronta, mandar muito currículo e aguardar.

Além disso, a profissão também dá a possibilidade de atuar fora do Brasil, em empresas como a Emirates, Etihad, que fazem processos seletivos aqui.

PC: Quais são os pontos que você considera não tão bons na sua profissão?

O fato de não ter muita projeção de crescimento, a não ser que a pessoa siga para outras áreas, como a administrativa.

Eu considero essa profissão como algo temporário.

Não me vejo voando daqui a dez anos. Mas para quem é jovem, solteiro e está começando é uma área maravilhosa, com remuneração muito boa, ótimas oportunidades de conhecer novos lugares, pessoas.

PC: O que é sucesso para você? Você se considera bem-sucedida?

Eu me considero bem sucedida, porque sempre que me propus a fazer algo, fiz de todo o coração. Sucesso para mim é ser verdadeiro naquilo que você faz, fazer de dentro para fora.

Dessa forma, acredito que não tem como não ter sucesso.

O retorno positivo das pessoas é algo que me faz sentir que estou no caminho certo. E, claro, obter retorno financeiro pelo que se faz.