Veja se essa profissão é para você!

A satisfação de cuidar do outro foi o que motivou Telmara Menezes Couto a escolher a enfermagem como profissão, mas foram a garra e a persistência que a fizeram chegar lá.

Nascida no interior da Bahia, em uma cidade onde não havia universidade, ela teve que mudar-se para Salvador para perseguir seu sonho e, sempre ancorada nos livros, ingressou na Universidade Federal da Bahia.

De lá para cá, sua trajetória seguiu os rumos que ela própria determinou: fez mestrado, doutorado e coordenou o núcleo de pesquisas que desenvolveu uma importante vacina anti viral.

Hoje atua como professora de graduação e pós-graduação na Universidade Federal da Bahia e coordena uma especialização de enfermeiras obstetras.

Além de compartilhar um pouco sobre sua trajetória profissional, Telmara dá algumas dicas para quem deseja seguir essa carreira, tanto na área assistencial quanto na área de pesquisa clínica.

Para ela, além de constante atualização, um bom profissional de enfermagem precisa ser capaz de enxergar muito além da doença, ter a sensibilidade de compreender a complexidade de cada pessoa: “é preciso buscar conhecimento dentro da ética, da filosofia e das áreas humanas, porque o ser humano não é apenas fisiologia, ele é filosofia também.”

PC: Imagino que para ter chegado onde chegou, você teve que estudar bastante. Como essa garra surgiu dentro de você desde tão cedo?

Eu fui a primeira da família a cursar uma faculdade. Meus pais estudaram só até o primário. A faculdade era algo quase inalcançável.

Particular, então, era impossível. Minha mãe já tinha me falado que se não fosse pública, era melhor nem tentar, porque não teríamos como pagar.

Então, eu tinha em mente que ou eu passava em uma instituição pública, ou não ia cursar uma faculdade. Sempre gostei muito de estudar.

No ginásio e no ensino médio, as professoras diziam que eu me destacava. Isso fazia com que eu tivesse esperança de passar no vestibular.

E essa esperança e a minha persistência me levaram a receber essas bolsas. Quando terminei o ensino médio, trabalhei como auxiliar de escritório no interior, por seis meses.

Dentro da minha gaveta tinha sempre um manual de cursinho. Nos intervalos de descanso e no meu horário de almoço eu ficava estudando. E nos finais de semana também estudava para o vestibular. 

PC: Qual é o perfil de um bom enfermeiro, na sua visão?

É preciso ter conhecimento técnico. Estudar é muito importante, ter sensibilidade para lidar com pessoas, que são mais do que uma patologia, são seres humanos com histórias de vida.

O cotidiano do enfermeiro assistencialista é exaustivo. Antes de ser docente eu tinha dois empregos, eram doze horas de trabalho.

PC: Quais são os maiores desafios de se trabalhar como enfermeira? Como você lida com eles?

Lidar com a morte é um grande desafio.

Acredito que é preciso resignificar o sentido da vida, de que ela é uma passagem, não um fim, e acolher o processo da morte.

PC: Que conselhos você daria para uma pessoa que deseja seguir carreira na área da enfermagem?

Para ser um enfermeiro assistencial, que é o profissional que atua no campo hospitalar, quanto na saúde pública, nos postos de saúde, é preciso se importar com o outro de uma forma complexa, inteira.

O conselho que eu dou para quem deseja entrar nessa área é para que enxergue o outro como um ser importante, valorizar o ser humano.

Ser enfermeiro significa cuidar do outro, nós não vamos em busca da cura, mas do cuidado. Se você gosta de cuidar, de trabalhar com pessoas, está no caminho certo.

PC: Qual a importância da enfermagem para a sociedade, na sua opinião?

A sociedade precisa olhar mais para a categoria da saúde que está mais próxima dos indivíduos.

No ambiente hospitalar, o enfermeiro é aquele que promove o bem-estar até que o paciente consiga restabelecer a saúde.

É um profissional indispensável para o cotidiano do hospital, porque atua com a comunicação da equipe, com a prevenção de doenças, com a parte educativa, individual e coletiva, familiar, levamos conhecimento para dentro da casa das pessoas, nas visitas domiciliares.

PC: Como você enxerga o mercado de trabalho hoje? Está difícil conseguir emprego na assistência? É mais fácil seguir pelo caminho da educação?

Hoje nós temos um maior número de profissionais em campo do que há 20 anos. O bom é que o próprio mercado faz uma seleção natural.

O profissional que sai com competência técnica e sensibilidade para trabalhar com seriedade tem mercado.

Hoje existem as residências multiprofissionais, que eu acredito ajudam a completar a formação do aluno e garantem emprego de qualidade.


PC: Quais são os principais atributos que você acredita serem necessários para atuar na área de pesquisa?

É preciso ser detalhista, respeitar o ser humano, ser muito rigoroso com os protocolos e seguir as normas é fundamental.

Eu trabalhei em um centro de pesquisas multicêntrico (o que significa que havia unidades fora do Brasil), então era preciso ter domínio da língua inglesa para leitura, porque os protocolos eram todos em inglês.


PC: Como exatamente essas características se mostram no dia a dia do profissional da enfermagem que atua em pesquisa?

Todo detalhe é importante para o andamento da pesquisa.

Por exemplo, se eu tinha que administrar um medicamento e esperar 30 minutos, verificar temperatura, sinais vitais, tinha que realizar as mesmas etapas em todos os pacientes igualmente, na mesma ordem, com o mesmo tempo.

Seguir a regra pode fazer com que o andamento da pesquisa mude. Nós já chegamos a suspender medicações em pesquisas por causa dos efeitos colaterais.

PC: O que é sucesso para você?

Sucesso é quando você está no lugar em que você planejou.

É gostar do que faz e ter prazer de fazer bem o que se propõe a fazer.

Você não sente o tempo, peso, nem cansaço enquanto está executando.