Veja se essa profissão é para você!

“Quando decidi fazer medicina, muita gente disse que eu jamais conseguiria. Diziam para eu fazer outro curso. Mas eu via os desafios como algo que eu ia superar”.

Foi com essa determinação que Madson Douglas encarou uma longa jornada de estudo e trabalho, com muitos obstáculos, até tornar-se cirurgião plástico.

Na casa de pau a pique, em Belém, onde morou com os pais e os 12 irmãos na infância, Madson lia e já brincava de “abrir os pintinhos para ver por quanto tempo aguentariam”.

Para ir a escola, os irmãos que estudavam à tarde tinham que esperar pelos que estudavam de manhã, para que lhes emprestassem os sapatos.

Hoje, aos 51 anos, além de comandar o seu Instituto Amazônia – voltado a estética, bem-estar e ao envelhecimento saudável – o médico atua também como professor de pós-graduação no Instituto Albert Einstein e em um curso de enfermagem.

“Você vai encontrar vários obstáculos na vida. Como você se comporta diante deles é que vai determinar se você vai ser bem-sucedido ou não”.

PC: Conte um pouco sobre sua trajetória para ingressar na universidade.

Sempre estudei em escola pública. Quando cheguei no segundo grau, meu pai esperava que eu fosse para a escola técnica, mas eu não queria. Já me identificava com a área da saúde.

Decidi, então, fazer as duas coisas: de manhã, estudava no colégio público estadual e, à tarde, na escola técnica federal, fiz Eletrotécnica. No último ano, me inscrevi no vestibular para Medicina.

Meu pai, meio descrente, disse: meu filho, medicina é curso para rico. E eu respondi: pai, medicina é um curso para qualquer pessoa. Para a surpresa de todos, aos 17 anos, ingressei na Universidade Federal do Pará, entre os dez primeiros colocados.

PC: O curso era integral, certo? Sua família deu suporte para que você conseguisse estudar sem trabalhar?

Minhas irmãs me ajudaram muito. Elas estudavam, mas o curso delas não era integral. Por outro lado, eu não exigia livros, me virava na biblioteca. Passei fome muitas vezes.

Tinha dinheiro apenas para o ônibus de ida e volta. Se eu voltasse para casa, para almoçar, teria que gastar mais.

Quando apertava a fome, tomava água. Muitos colegas eram solidários, se ofereciam para me pagar um lanche.

Uma vez, estava quase desmaiando de fome e tinha uma prova. Uma amiga perguntou se eu estava nervoso e eu disse que sim e pedi um chiclete.

Foi o açúcar que eu tive para minimizar a fome e conseguir fazer a prova. No Pará, naquela época, não existia a cultura de levar marmita para a faculdade. Era motivo de vergonha.

PC: E depois de formado você já começou a trabalhar?

Me formei em 1990 e fui médico do exército por um ano. Em 1992, vim para São Paulo, cursar a residência. Morei em pensão até conseguir me estruturar.

Teve dias em que fui à pé para a residência porque não tinha dinheiro para o ônibus.

Conciliava os plantões com a residência. Em alguns períodos, não é possível trabalhar, então tinha que viver com a bolsa, que era uma miséria.

Estudei seis anos de residência médica, três de cirurgia geral e três de cirurgia plástica.

PC: Você trabalhou com emergências. Como é o dia a dia de um médico nesse setor?

O pronto-socorro é um ambiente muito dinâmico.

São pacientes graves que chegam e você precisa decidir em um minuto o que fazer.

E essa decisão pode determinar entre a vida e a morte da pessoa. Se uma pessoa chega com falta de ar muito séria, não dá tempo de pensar muito.

É preciso ser capaz de analisar rapidamente se ela será entubada ou não.

PC: Quais são as características necessárias para alguém que quer se especializar em cirurgia?

É preciso ser uma pessoa objetiva, dinâmica, que não tem medo de tomar a frente das situações e resolver.

PC: Você trabalhou no SAMU. Me conte um pouco sobre a rotina de trabalho e sobre os principais desafios dessa área.

É preciso ter muita iniciativa e capacidade de tomada de decisão rápida. O profissional tem que estar de prontidão e pode surgir todo tipo de ocorrência: um atropelamento, um enforcamento, coisas muito graves.

É preciso ter um preparo psicológico, pois quando se está diante de um caso grave, não se pode errar.

Um dos meus primeiros casos foi uma colisão entre dois carros, sendo que de um lado havia jovens bêbados e do outro, uma família que veio de uma festa.

Já tive casos de crianças, em que tentamos reanimar, mas não conseguimos. Trabalhar com emergências tem esse lado bem difícil.

PC: Que conselhos você daria para quem quer se tornar médico?

Pense em como você quer se ver daqui a vinte anos.

Os dez primeiros anos na medicina são ótimos, você é jovem e está com todo o gás, consegue emendar plantões.

Depois do décimo primeiro ano, seu corpo já não é mais o mesmo, então tenha em mente que você precisa acordar com o espírito de estar indo fazer o que você quer.

Não escolha a especialidade por causa do dinheiro, porque não adianta querer fazer dermatologia para trabalhar só com estética, se você não gostar do dia a dia.

Se estiver feliz, você vai se destacar e o dinheiro virá como consequência.

PC: Como está o mercado de trabalho para os médicos, na sua visão?

De maneira geral, o mercado da saúde está muito ruim. Antigamente, chegava-se a pagar até dois mil reais por um plantão de 12 horas, hoje já se faz plantões por 600 a 800 reais.

Existe uma concentração maior de mão de obra nos grandes centros urbanos. Ninguém quer ir para as regiões mais afastadas. Os hospitais públicos sofrem com a terceirização.

Hoje o médico é um profissional braçal, terceirizado e praticamente sem direitos, porque a maior parte das contratações é PJ.

O setor privado dita as regras e, mesmo para quem tem consultório, fica-se a mercê de convênios, que pagam muito pouco.

PC: O que é preciso para empreender na medicina?

Hoje, o grande boom dentro da saúde é o envelhecimento. E não falo da geriatria, que lida com as doenças, mas da gerontologia, que lida com a saúde, com a prevenção.

Em cima do envelhecimento saudável, ativo, você pode criar centros de convivência, onde o idoso pode passar o dia realizando atividades, que vão desde cognitivas até o lazer.

Ele vai interagir com outros idosos e se sentir bem. A sociedade envelheceu. Em 2030 nós vamos ter mais idosos do que jovens.

PC: Qual é o perfil profissional que você acredita que irá se destacar na medicina no futuro?

A sociedade precisa de um profissional mais humano e, na área da saúde, essa deve ser uma característica preponderante.

Não tem como cuidar do outro se não for assim.

A responsabilidade profissional traz a obrigação de se manter permanentemente atualizado, ou seja, estudando.

Outro ponto importante é que, com o Google, o paciente já chega ao consultório sabendo algumas coisas, questionam condutas e tratamentos. Os médicos não estão preparados para isso e se retraem. Mas esse tipo de profissional não tem mais espaço no mercado.

Eu digo para os meus alunos: acabou essa história de conhecimento único e verdade absoluta. É preciso aprender com os outros profissionais (nutricionistas, enfermeiros, farmacêuticos), dividir a responsabilidade.

E com o paciente também: explicar, por exemplo, quais são as opções de tratamento e deixar que ele decida. Isso fortalece o vínculo. Se o médico coloca uma barreira e não admite ser questionado, o próprio paciente se sente retraído.

Você se considera um profissional de sucesso?

Sim. Não por causa do dinheiro, mas porque faço o que gosto. Sucesso para mim é acordar, abrir um sorriso e me sentir feliz pelo trabalho que vou fazer. Na educação, o que me motiva é saber que os alunos saíram da sala de aula pessoas melhores.