A aviação sempre esteve presente na vida de Soraia Lopes de Miranda Silva por meio das histórias sobre seu avô materno, que era piloto. Foi por meio das narrativas da mãe que ela conheceu o universo encantador dos ares. “O encantamento sempre existiu, entretanto, as narrativas tinham um tom de frustração, pois ela queria ter se tornado piloto e não teve o apoio dos pais. Logo, cresci com a ideia de que a aviação não daria certo para mim também”, relembra Soraia, hoje com 33 anos. Ela deixou a ideia de lado e cursou a faculdade de História, trabalhou na área de Patrimônio Histórico, mas não demorou muito para sentir-se insatisfeita. “Foi quando namorei um piloto de linha aérea e descobri que esse mundo, até então de limites intransponíveis no meu imaginário, seria algo possível para mim também”. “O namoro não deu certo, mas algo melhor aconteceu. Essa vontade adormecida despertou dentro de mim e fui em busca de colocá-la em prática!” Hoje, pilota um jato executivo Cessna Citation SII (tipo icao S550) ao lado do esposo Patrick Pereira de Castro e compartilha suas experiências pelos céus no perfil Duplo Comando, no Instagram.

PC: Por que optou pela aviação executiva?

O contato com esse piloto de linha aérea trouxe muito mais as perspectivas negativas do estilo de vida dos tripulantes desse setor da aviação do que os positivos. Acho que fiquei impregnada com essas impressões, e por isso, busquei, desde o começo, a aviação executiva. Com o tempo, fui criando minhas próprias impressões, mas elas apenas confirmaram o que eu já esperava. A carga de horas de voo, no geral, é bem mais leve na executiva, e os salários não ficam atrás dos da comercial. Sou feliz na executiva e não pretendo buscar novos horizontes nas companhias aéreas.

PC: Pode me explicar as diferenças entre aviação executiva e a tradicional?

As duas aviações são tradicionais e existem desde a invenção dos aviões. Eu diria que uma é popular e a outra é mais restrita. A maior diferença entre a aviação de linha aérea e a aviação executiva é o tipo de operação. Uma trabalha em grande escala, com transporte regular de passageiros, diversos destinos pré-estabelecidos pela malha da companhia e escala de voos regulares, (logo é de maior acesso à visibilidade do público); a outra, opera de forma exclusiva, atendendo somente o proprietário da aeronave, com voos sob demanda, com destinos que variam de acordo com a necessidade de cada um. E existe ainda o táxi-aéreo e a aviação cargueira, que também tem voos sob demanda, mas o proprietário é uma empresa que presta serviços de locação de aeronaves, seja para voos comuns, seja para transporte de enfermos ou para fretamento de transporte de carga.

PC: Ainda existe algum tipo de resistência de clientes quando sabem que vão voar com uma piloto mulher?

Somos contratados por apenas um proprietário como funcionários exclusivos. Não temos clientes diferentes a cada voo porque não somos de táxi aéreo. Quando tem gente diferente, são amigos e convidados dos donos, que por sua vez, sempre fazem questão de enaltecer o fato de terem uma mulher piloto, não deixando espaço para questionamentos. Alguns gostam da novidade, outros parecem menos confortáveis, mas prefiro pensar que é pelo simples fato de voar em um avião menor. Caso seja mesmo um desconforto real, tenho certeza que passa depois que a gente pousa! Mas já tive uma experiência ruim no passado (não nesse emprego), em que a filha do dono se recusou a ir no voo caso eu fosse pilotando na esquerda (assento de comandante). Ela deu um verdadeiro chilique dentro do avião, e eu tive que trocar de lugar com o Patrick.

PC: O que você mais gosta da rotina de trabalho de piloto?

Não ter rotina! E ter como “janela do escritório” uma paisagem diferente e absurdamente linda todos os dias! Parece piegas e demasiadamente poético, mas eu realmente adoro! E também não me acostumo (no sentido de enjoar) com o fato de ver as coisas lá de cima, passar por entre as nuvens e, além disso, tomar café em Belo Horizonte, almoçar em São Paulo e dormir no Rio de Janeiro! Não necessariamente nessa ordem, nem nessa frequência, afinal, não temos rotina repetitiva!

PC: Tem algo no dia a dia do seu trabalho que você considere não tão legal?

Tudo na vida tem dois lados. A aviação executiva também tem seus pontos negativos. Está longe de ser uma vida perfeita e de puro glamour, como a maioria das pessoas pensam. Tem seu lado cansativo e de sacrifícios também. É preciso gostar muito do que se faz para dar conta. Nossa vida pessoal, muitas vezes, fica em segundo plano. A dificuldade de programar a nossa própria disponibilidade para os nossos próprios compromissos é um ponto bem negativo. Traduzindo: nunca sabemos se estaremos disponíveis para ir a uma festa de aniversário, casamento, consulta médica, etc.. Nossa agenda é a agenda da chefia. E ela muda sempre e quase nunca é programada com antecedência. Temos que aprender a lidar com o improviso e tudo de última hora (risos)!

Com o marido Patrick – @duplocomando

PC: Você tem alguma história marcante de passageiro que esteve à bordo do seu avião?

Além da mulher (com seus 30 e poucos anos) que se negou a voar comigo em comando, gritando: “ah não papai, se ela for pilotando eu não vou!”, já tive experiências positivamente contrárias! Em que passageiros ficaram mais tranquilizados e com menos medo de voar porque eu estaria a bordo. Já consegui, inclusive, fazer crianças embarcarem sem medo, por que eu iria junto (e isso com pessoas desconhecidas). Isso é muito legal e marcante.

PC: Quais foram os principais desafios que você teve que enfrentar para chegar no momento da carreira em que está hoje?

O maior desafio que tive – e acredito que seja o mais comum entre a maioria dos pilotos – foi a batalha para conseguir as horas de experiência de voo. Mas, nesse caminho, talvez eu possa dizer que ser mulher tem um pequeno fator dificultador: o assédio por parte de alguns. Tive o desprazer de cruzar com pessoas que se mostraram disponíveis em ajudar, quando na verdade tinham outras intenções. Mas eu sempre fui muito firme neste quesito e tive uma postura muito radical. Perdia a oportunidade, mas não perdia a dignidade e seguia insistindo em novas chances em busca do meu propósito! E, graças a Deus, encontrei também muitas pessoas boas no caminho, pilotos que me ajudaram de verdade. E todos esses obstáculos foram ficando para trás.

PC: O mercado da aviação tem se transformado bastante nos últimos anos de modo geral. Você acredita que esse ainda é um mercado de trabalho promissor?

Não há dúvidas de que a aviação é um mercado de trabalho promissor. Principalmente em termos internacionais. É fato que faltam pilotos no exterior. Mas, infelizmente, essa não é a realidade do Brasil, pois nossa economia é muito instável. Isso afeta diretamente a demanda do mercado desses profissionais da aviação. O Brasil é o único mercado em que sobram pilotos.

PC: Que características e habilidades você acredita serem as mais importantes para quem deseja ser um bom piloto?

Em termos de habilidades técnicas, um piloto dessa nova geração precisa ter boa coordenação motora, rapidez de raciocínio lógico, capacidade de realizar multitarefas, conseguir manter a atenção e concentração e ter um domínio mínimo do inglês. Em termos de personalidade, é interessante saber trabalhar em grupo, se relacionar bem com as pessoas, gostar de estudar, ter hábitos saudáveis, pois precisamos realizar exames periódicos de saúde e ter um bom senso de responsabilidade, respeito à máquina e às leis da natureza. Em termos financeiros, o curso técnico (somente aquele para tirar o Certificado de Habilitação Técnica / Brevê) é preciso, em média, de 80 a 120 mil reais. Sim! É caro, mas… quantos cursos em faculdades particulares não têm a mensalidade de R$ 1500 a 2000 reais por mês, durante cinco anos? Por que as pessoas não se assustam com esse valor para fazer um curso de Direito?

PC: Tem algum conselho para quem pensa em seguir essa carreira?

Planeje-se a longo prazo! Se for preciso, se forme em outra área profissional. Até porque, com uma economia instável como a nossa, ter um plano B é sempre bom. Tenha em mente que, por mais que possa ser rápido conseguir as carteiras (caso tenha dinheiro para fazer isso de seis a oito meses), a média para inserção no mercado gira em torno cinco anos de preparação e espera. Então, se você ainda não tem dinheiro para fazer de modo rápido, faça devagar mesmo! Invista em aprender inglês! Esteja disponível para mudanças. E seja persistente! Se é a aviação que faz seu coração pulsar, vai valer a pena!

PC: O que é sucesso para você? Você se considera bem sucedida?

Sim! Bem sucedida é ser feliz. Porque concordo plenamente com Dale Carnegie quando ele diz que “ter sucesso é conseguir o que você quer, e felicidade é gostar do que você conseguiu”.

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