Veja se essa profissão é para você!

Perseverança, fé e disciplina sempre estiveram presentes na história do paulistano Reiner Ferreira, 33 anos, zagueiro do clube norte-americano Indy Eleven.

Criado com dificuldade pela mãe, ao lado dos quatro irmãos, deu forma ao sonho de ser jogador de futebol logo na infância.

Treinou com afinco, foi atrás de clubes, ouviu muitos “nãos”, mas nunca desistiu.

E, quando as circunstâncias exigiram, adaptou-se, aprendeu a atuar em uma nova posição, estudou um novo idioma e hoje carrega em sua bagagem profissional passagens por oito clubes brasileiros e seis internacionais.

A carreira de futebolista tem muitos prós, incluindo o glamour que envolve os jogadores, mas quem opta por essa profissão deve estar ciente dos contras também: lesões, possíveis mudanças de cidade ou até de país são implicações a se considerar.

Além disso, é preciso planejar bem o futuro, pois, em geral, atletas profissionais acabam deixando de jogar pouco depois dos 30 anos.

Nessa entrevista, Reiner conta que todo o esforço e a garra diante das dificuldades valeram a pena: “Eu aceitaria passar por tudo novamente. Hoje olho para o meu passado, vejo onde cheguei e me considero um cara vitorioso, um cara do bem. Hoje eu vivo o meu sonho”.

 

PC: Como foi a sua infância e em que momento você decidiu que queria ser jogador de futebol?

Ser um atleta profissional sempre foi meu sonho, desde criança. Somos em cinco irmãos.

Quando eu era criança, apenas a minha mãe trabalhava – e trabalhava muito, todos os dias, para colocar comida na mesa.

Houve muitos momentos em que nós estávamos com fome ou queríamos comer algo diferente e não tinha, então a solução que ela e minha irmã mais velha, a Aime, encontravam era fazer chá de erva-cidreira, porque tinha na casa de uma vizinha e ela sempre nos deixava pegar o quanto quiséssemos.

Minha mãe nos ensinou a ser fortes psicologicamente, para enfrentar os obstáculos que teríamos na vida.

E hoje, graças a Deus, todos nós vencemos na vida porque sempre formos bem instruídos a correr atrás daquilo que queremos.

PC: Como era o seu desempenho na escola? Era um bom aluno? Gostava de estudar?

Eu era um aluno esforçado e dedicado quando tinha que ser, mas, sendo sincero, não era um fã de escola, não (risos). Meu desempenho era normal, nada acima e nem abaixo da média.

Minha mãe sempre me disse para estudar e me formar em medicina, como os meus irmãos. Nunca é tarde para recomeçar. Se eu vou fazer medicina depois que encerrar a minha carreira? Com certeza não (risos).

 

PC: Como foi o seu início no futebol? Você mesmo procurou uma escolinha?

Foi muito gostoso, comecei a jogar na escolinha do bairro, que hoje nem existe mais.

Meu irmão mais velho jogava na mesma escolinha e nós íamos sempre juntos.

Ele me levava para onde eu tinha que jogar. Eu treinava duas vezes por semana, cerca de duas horas por treino, e jogava aos sábados. Ia sempre animado, com determinação e muita vontade de treinar.

Quando estava treinando, não queria ir embora.

 PC: Quando começou a jogar profissionalmente? O clube veio até você?

Comecei a jogar a profissionalmente com 18 anos, mas desde pequeno sempre fui atrás de clube.

Quando eu tinha 14 anos, jogava na base do São Caetano, treinando diariamente.

Um dia, depois do treino, uns empresários apareceram com a proposta de levar alguns de nós para um clube do interior de São Paulo chamado Francana.

Lá nós teríamos casa, alimentação e uma ajuda de custo. Aceitei a proposta e, chegando lá, só havia profissionais acima de 20 anos. Mas eu não poderia voltar para casa, queria continuar ali.

Fui muito bem recebido pelo clube e pelos jogadores do elenco. Foi uma experiência muito importante, tanto como profissional quanto para o meu amadurecimento pessoal, embora eu não pudesse jogar nenhuma partida oficial, por causa da idade.

Cerca de seis meses depois, o campeonato acabou e o clube não se classificou para as finais. Decidi, então, voltar para São Paulo e procurar outros clubes.

PC: Como foi a sua trajetória desde o primeiro clube em que jogou até chegar no Indy Eleven?

Foi sofrida, mas muito gratificante, graças a Deus. Corri muito atrás de clube e ouvi muitos “nãos” ou coisas do tipo “você era o jogador que nós estávamos procurando, mas não podemos ficar com você (risos)”.

Todas as pessoas que têm esse sonho e não têm muitos contatos ou conhecimento na área passam por dificuldades, mas minha mãe me deu bastante suporte.

Joguei em oito clubes aqui no Brasil e seis clubes no exterior. Morei em Portugal, nos Emirados Árabes Unidos, na Turquia, na Coréia do Sul e, por último, nos Estados Unidos.

 PC: A comunicação com os colegas de time e com a equipe técnica é em inglês? Teve que fazer aulas ou aprendeu no dia a dia? Foi muito difícil?

A comunicação sempre foi em inglês, mas uma coisa que me ajudou muito e que eu digo que salvou a minha vida, foi que eu tive um tradutor em dois clubes.

O inglês é muito difícil de aprender, mas quando queremos algo, nós conseguimos.

Aprendi bastante, até brinco dizendo que eu não perco e nem passo fome ou necessidade em país nenhum (risos).

PC: Você sempre jogou como zagueiro?

Não. Quando criança, eu era meia-esquerda, até que um dia, fui fazer um teste em um clube e eles não tinham zagueiro e o meia-esquerda era muito bom.

Fui até o treinador e disse que poderia jogar como zagueiro, porque eu queria passar no teste e, graças a Deus, deu tudo certo.

PC: Que conselhos você daria para alguém que quer se tornar jogador de futebol?

Se você realmente quer ser um atleta profissional, nunca deixe ninguém dizer que você não pode ser um.

Acredite em si mesmo, você é capaz de tudo, apenas acorde com vontade, determinação e vá atrás dos seus sonhos e objetivos.

 PC: O que você considera fundamental para ser um bom jogador?

Disciplina, vontade e humildade sempre.

 

PC: Como é o seu dia a dia de trabalho?

Nós temos rotina, horários, alguns seguem dietas, fazemos musculação diariamente, treinamos quase todos os dias em dois períodos.

Eu durmo cerca de 8 horas por noite e me sinto bem, mas depende da necessidade da cada um.

 

PC: Quais foram os principais desafios que teve que enfrentar para se tornar o jogador de futebol que é hoje?

Os desafios são diários, constantes.

Mas o maior deles é ficar longe das pessoas que você ama e querem o seu bem, como a família e os verdadeiros amigos.

Outro desafio são as lesões. É muito difícil ficar impossibilitado de fazer aquilo que você gosta.

PC: O que é sucesso para você? Você se considera um profissional de sucesso?

É ter o respeito de todos e ser grato às pessoas que sempre estiveram ao seu lado.

Ver as pessoas felizes com um sorriso no rosto. Eu me considero um homem e um atleta de sucesso.

PC: Sabemos que a carreira de atleta é relativamente curta e você está com 33 anos. Você tem planos para o futuro quando deixar de ser jogador?

A minha carreira está chegando ao fim, penso em jogar até os 36 anos.  Tenho muitas coisas na cabeça, mas ainda não decidi se vou continuar na área do futebol, ou abrir um negócio.

Pretendo cursar educação física, por ser uma aérea de que gosto, e depois trabalhar como analista de desenvolvimento de atletas profissionais fazendo scouts (análise estatística).

É o que eu penso hoje, mas em três anos as coisas podem mudar.