Quem vê a jovem Deborah Lestingi, de apenas 26 anos, sem seu jaleco, fora do consultório, não imagina a profissional madura e competente que ela se tornou, após anos de dedicação aos estudos e de trabalho árduo. Hoje nutricionista, especializada em nutrição clínica e esportiva, ela tem três consultórios próprios e ainda realiza atendimentos em uma conhecida rede de academias de São Paulo. Mas o sucesso não foi entregue a ela de mão beijada: Deborah trabalha desde os 14 anos – vendeu pão de mel no cursinho e teve empregos temporários em shoppings para juntar dinheiro – e estudar sempre foi uma prioridade. “Sempre estudei em colégio particular, mas, em todos os momentos, com bolsas de estudos e, para mantê-las, precisava tirar boas notas”, relembra. Ao PraCarreiras, ela falou sobre o seu caminho de crescimento profissional em um tempo relativamente curto, contou como é o dia a dia da profissão e da importância de se posicionar com seriedade no mercado da nutrição, frente aos modismos das dietas milagrosas.

PC: Me conte um pouco sobre o início da sua trajetória profissional. Por que você escolheu a faculdade de nutrição?

A única certeza que eu tinha era a de que faria um curso da área da saúde. Mas tinha um pouco de dificuldade financeira, então precisava entrar em uma faculdade pública, em um curso que não fosse em período integral, porque eu precisava trabalhar à tarde. Acabei indo para a Nutrição na Universidade de São Paulo (USP) quase exclusivamente por eliminatória. No meio do curso, percebi que era o que eu realmente queria. Vale lembrar que apenas a partir do terceiro ano é que se entra nas disciplinas relacionadas à nutrição de fato. Os três primeiros são de muita bioquímica e fisiologia.

PC: Como foi seu caminho da faculdade até chegar ao patamar em que está hoje, com três consultórios? Teve muitas dificuldades?

Durante a faculdade de nutrição não é possível ser efetivado, pois é preciso ter o número do Conselho Regional, então todo mundo sai do curso desempregado. No último ano tem os estágios obrigatórios, que ocupam pelo menos seis horas do dia. Isso torna inviável trabalhar. Quando terminei a faculdade, fui convidada para implementar um projeto no Hospital das Clínicas. Não tinha nada a perder, então, quando a oportunidade surgiu, fui e gostei muito. O trabalho do nutricionista é importante em todas as alas, desde a oncologia, onde eu fiquei. Mas eu me senti insatisfeita em dois pontos: não há cargos para o nutricionista crescer dentro do hospital, só existe um cargo acima do seu, que é o de supervisor e o salário não muda muito. E essa área exige atualização constante, são cursos caros, congressos internacionais, e o salário não acompanha isto. A remuneração gira em torno de 2000 a 2500 reais, em geral. Alguns hospitais pagam uma faixa de 5000, mas sem muita promessa de futuro. Decidi, então, ir para o consultório, porque eu tinha a consciência de que eu receberia proporcionalmente ao que eu trabalhasse.

PC: Por que você se especializou em nutrição esportiva?

Por causa da procura dos pacientes. A maioria vinha buscando qualidade de vida ou emagrecimento, aliados a exercício físico. E, pelo estilo de vida que eu levava, sabia que ia ter público. Era o meu ambiente e era muito mais fácil encontrar clientes em um ambiente que eu já frequentava.

PC: Me fale um pouco sobre a sua rotina de trabalho.

Eu sou autônoma, não tenho horário fixo. Muitas pessoas acham que isso é uma vantagem enorme e, de fato, é legal quando eu preciso viajar ou tenho um compromisso. Porém, também não tenho hora para sair. A minha rotina, basicamente, começa em torno de 7h, 8h em consultório e acaba entre 20h e 21h, às vezes, até às 22h. Mas o atendimento não se resume ao consultório. Eu levo dieta para montar em casa, então se eu atender 40 pacientes na semana, terei quarenta dietas para montar em casa. Por isso, os meus dias e horários de atendimento são pensados levando isso em consideração também. Separo pelo menos dois dias da semana para montar dietas e estudar, além dos compromissos pessoais. Quando se trabalha por conta própria é preciso ter uma organização muito grande. Além disso, os pacientes também me procuram muito pelo Instagram e pelo Whatsapp, para tirar dúvidas,  marcar consultas, etc.

PC: O mercado de trabalho de Nutrição é competitivo?

Na época em que me formei, não era tanto. Mas o mundo fitness, do emagrecimento e do esporte começou a ganhar espaço e muitas pessoas acabaram escolhendo a profissão, não pela aptidão, mas pelo retorno financeiro que a área promete. Por isso, hoje o mercado é competitivo nessa área de atendimento e não só entre os nutricionistas: outros profissionais, como médicos, educadores físicos, vendedores de uma série de produtos acabam querendo tomar o lugar do nutricionista sem autorização, sem registro no conselho, sem a formação certa para isso e tiram nosso público inicial. Geralmente, as pessoas fazem N tentativas com um monte de profissionais e, depois que deu errado, procuram a gente. Por isso, temos que nos posicionar como profissionais respeitados e não substituíveis. Ainda não existe a cultura de o nutricionista ser necessário. Ainda somos vistos como profissionais “de luxo”.

PC: Quais são os maiores desafios/dificuldades do trabalho de nutricionista no dia a dia?

Na área de consultório, quando se é autônomo, algumas desvantagens são: não ter 13º salário, nem férias. O deslocamento e a alimentação são por minha conta. Se eu decido viajar por dois meses, por exemplo, consigo fazer isso no momento do ano em que eu quiser, mas meus custos continuarão os mesmos: terei que cobrir a viagem, os dois meses sem trabalhar e os custos do consultório. Esses são fatores cruciais quando se pensa em ser autônomo. Outro desafio é a questão de as pessoas encararem o nutricionista como um luxo, não enxergarem a real utilidade do profissional. Muitas têm a ideia de que nutrição é dizer o que se pode ou não comer. É tanta informação vinda de tantos lugares, que as pessoas se sentem quase formadas em nutrição. E a profissão vai muito além: são cinco anos de faculdade, dois de pós-graduação e são matérias muito específicas. Ou seja, é uma dificuldade para os nutricionistas se posicionarem com respeito no mercado, porque a profissão está banalizada. São milhões de tipos de dietas que inventam por aí e o nutricionista fica de lado. Embora a área esteja crescendo, o profissional ainda é desvalorizado.

PC: Quais são as características que, na sua opinião, diferenciam um bom nutricionista de um profissional mediano?

É ser humano. O fator principal é ter a sensibilidade de entender o que trouxe o paciente até o consultório, o que ele espera de você e conseguir adequar a dieta a algo que ele faça com prazer, que não vire um remédio. Ter a delicadeza de perceber que você está falando com um ser humano, que existe um apego emocional com o alimento e é preciso respeitar isso. Se o profissional não faz isso, quebra totalmente a lembrança social que o paciente tem em relação ao alimento e não tem o resultado esperado, porque não vai haver o mínimo de adesão à dieta.

PC: O que é sucesso para você? Considera-se bem sucedida na carreira?

Considero-me bem-sucedida tendo em vista em quanto tempo eu cresci e o número de consultórios e de pacientes que tenho. Hoje já não preciso buscar tanto, os clientes vêm até mim. Eu optei, desde o início, por fazer meu nome sozinha, para não virar a nutricionista do médico tal, ou da clínica tal, e me tornar só mais um número. Queria ser lembrada pelo meu nome: a nutricionista Deborah Lestingi. E eu consegui isso, fiz meu nome. É claro que não posso dizer que não tive apoio ou aprendizado com nenhum outro profissional, muito pelo contrário. Tem profissionais de quem eu gosto muito e nós acabamos indicando um ao outro por confiar no trabalho e não porque um ganha dinheiro com o outro. Mas o sucesso depende do que cada pessoa planejou. Um dos planejamentos que eu tinha era o de me tornar um exemplo para estudantes de nutrição. Pessoas que estão aprendendo, têm todas as teorias fresquinhas na cabeça e, quando veem que eu estou aplicando uma teoria de forma ética e se espelham em mim, não tem nada mais gratificante.