Muita gente pode pensar que o fonoaudiólogo é responsável apenas por “corrigir” problemas de fala, como gagueira e língua presa. Entretanto, esse profissional está apto a detectar distúrbios não somente na voz, como na comunicação dos indivíduos de forma geral.

Até mesmo o aleitamento materno pode se beneficiar da orientação de um fonoaudiólogo, por exemplo, nos casos em que o bebê tem dificuldade de “encaixar-se” ao seio da mãe.
Carmen Carbone, 46 anos, tem 25 de profissão e garante que o campo de atuação é amplo. “Atuamos com linguagem, audição, reabilitação neurológica, estética, amamentação, orientação educacional, indicação de aparelhos auditivos, saúde do trabalhador, motricidade oral, etc.”.

Dessa forma, de hospitais ao teatro, o fonoaudiólogo tem expertise para atuar na melhora de funções relacionadas à respiração e até à mastigação.
Em entrevista, Carmen conta como foi o seu início na profissão, os principais desafios do seu dia a dia e diz o que é preciso para ser um profissional bem-sucedido na área. Será que a fonoaudiologia é para você? Talvez depois de ler esse texto você descubra. “É uma área que ainda tem muito a crescer e será uma profissão do futuro”, conclui Carmen.

PC: Você sempre soube que iria estudar fonoaudiologia? Como foi a escolha da profissão?

Não, nunca imaginei! Queria estudar Educação Física, mas, no terceiro colegial, fui à Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) fazer um trabalho sobre deficiência para a feira de ciências da escola, e quem me recebeu foi uma fonoaudióloga. Ela me explicou o que faz o fono e eu me apaixonei, saí de lá dizendo que queria ser fonoaudióloga. Foi amor à primeira vista.

PC: Foi difícil conseguir o primeiro emprego? Como se deu o seu início na carreira? Houve muitos desafios nessa fase?

Eu sempre me meti em tudo na época da faculdade. Fazia todos os cursos, estágios, monitorias e, com isso, surgiu o meu primeiro emprego. No último ano da faculdade (são quatro anos) iniciei um estágio pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), na SEISA, uma assistência médica da região de Guarulhos. Depois do estágio, que durou um ano, me convidaram para trabalhar na SEISA e fiquei lá por 13 anos. No início, são milhões de desafios, pois temos que estudar muito, nos atualizar e cada novo paciente e atendimento é um desafio, já que na faculdade não conseguimos atender todas as patologias.
No início, também tem o desafio de provar que mesmo sendo recém-formada você é uma profissional. Os profissionais mais antigos (médicos e enfermeiros) precisam ser cativados para acreditar no seu trabalho. É preciso provar nossa competência diariamente.

PC: Quais são os campos de atuação do fonoaudiólogo?

A fonoaudiologia tem um campo gigantesco. Atuamos com linguagem, audição, reabilitação neurológica, estética, amamentação, orientação educacional, indicação de aparelhos auditivos, saúde do trabalhador, motricidade oral… O fonoaudiólogo trabalha em equipes  multidisciplinares principalmente com odontopediatras, ortodontistas, pedagogos, psicopedagogos, pediatras, neurologistas, otorrinolarigologistas, psicólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. Mesmo trabalhando em consultório próprio, temos que ter uma rede de parceiros para fazer os encaminhamentos.

PC: Hoje, além do trabalho de audiometria que realiza em empresas, você também atende crianças em consultório, certo? Me conte um pouco sobre como é a dinâmica dos seus dias.

Hoje trabalho de segunda a sábado. Separei um dia para atender a área da medicina ocupacional, faço trabalho de PCA (Programa de Conservação Auditiva) em empresas onde os colaboradores ficam expostos a ruídos. Nesse segmento, faço exames audiométricos, gestão dos resultados e treinamentos aos colaboradores abordando a saúde auditiva. Nos demais dias, fico em meu consultório, atendendo das 9h até às 19h. Deixo o período das 7h às 8h30 reservado para visitar as escolas, pois, como trabalho basicamente com linguagem, leitura e escrita, a parceria com a escola é muito importante. Realizo treinamentos aos professores nas escolas, explicando o que devemos observar nos alunos quanto ao desenvolvimento infantil. O professor é fundamental no encaminhamento, por isso trabalho estreitamente com esses profissionais.

PC: É comum as pessoas acreditarem que é necessário ser médico para exercer a fonoaudiologia. Mas, embora exista um curso específico para tornar-se fonoaudiólogo, você acredita que apenas a formação universitária é suficiente para capacitar o profissional? Você fez especializações?

Em todas as áreas, o bom profissional tem que se atualizar sempre. E na área da saúde não é diferente: as pesquisas, os protocolos de atendimento estão sempre mudando e temos que seguir esse movimento. Eu estou sempre estudando, fazendo cursos, participando de congressos e simpósios. Fiz especialização em Gestão de Saúde, Aprimoramento em Audiologia educacional e Aprimoramento em Audiologia ocupacional e agora estou fazendo especialização em Fonoaudiologia Educacional. É importante que o profissional de fonoaudiologia tenha conhecimento em inglês, pois a maioria dos protocolos e pesquisas vêm de fora e depois fazemos os estudos comparativos com a realidade brasileira.

PC: Quais foram os desafios mais importantes que você enfrentou durante esses anos de atuação?

O maior desafio é mostrar que a fonoaudiologia é uma ciência séria, com base científica e fundamental para o quadro multidisciplinar. Há também a questão da luta salarial, já que o fonoaudiólogo não tem piso salarial e nem sindicato aqui em São Paulo. Desta maneira, encontramos empresas pagando valores absurdos aos fonoaudiólogos e, infelizmente, ainda existem profissionais que se sujeitam a esses trabalhos. Os convênios médicos pagam valores ridículos e, em várias clínicas, o valor pago ao fono é menor do que ao fisioterapeuta e ao psicólogo. A fonoaudiologia é uma profissão recente no Brasil. A idealização da profissão começou na década de 30, mas só em 09/12/1981 ela foi legalizada e sancionada pelo presidente João Figueiredo.

PC: Quais são as habilidades e características de personalidade que você considera fundamentais para ser um bom profissional nessa área?

Precisa ser uma pessoa com capacidade de observar e analisar. É fundamental que goste de interagir com o outro, que seja proativo, organizado e que goste de estudar.

PC: Qual a sua visão sobre esse mercado de trabalho? É uma área competitiva?

É uma área que ainda tem muito a crescer e será uma profissão do futuro. Ainda estamos fortalecendo nosso lugar no mercado de trabalho. Sinto que os profissionais deveriam ser mais unidos e lutar pela mesma finalidade. É uma área competitiva como todas as outras áreas, mas os bons profissionais e os bem qualificados tem trabalho constantemente.

PC: Qual é a sua concepção de sucesso? Você se considera uma profissional bem-sucedida?

Hoje me sinto bem sucedida. Sempre busco mais. Tenho sempre novos projetos, mas, após 25 anos de formada (me formei em 1994 pela PUC-SP) me sinto realizada. Acredito que o profissional de sucesso é aquele que se posiciona e mostra que seu trabalho faz a diferença no seu segmento. É aquele que, mesmo cansado, ao fim de um dia de trabalho, se sente feliz e completo. Eu amo o que faço e sinto que a minha profissão me completa. Hoje não me vejo fazendo nada diferente do que a fonoaudiologia.