Veja se essa profissão é para você!

Ela sempre adorou escrever, trabalhou como jornalista durante 16 anos, mas não se permitiu ser acorrentada à profissão que escolheu.

Daniela Ceneviva – conhecida como Danka – tinha outras paixões e, quando o jornalismo não a fazia mais feliz, enveredou-se pelo caminho das artes: procurou um curso profissionalizante na área de maquiagem e, enfim, descobriu-se novamente motivada e decidida a investir em uma mudança radical de carreira.

“No segundo dia de aula eu já sabia que era aquilo o que queria para a minha vida. O entorno da profissão é lindo: conhecer gente das artes, fotógrafos, estilistas, outros maquiadores, cabeleireiros…”.

Foi assim que, em 2014, Danka pediu demissão do seu emprego em uma agência e mergulhou de vez no universo da beleza. Logo depois, fez outros cursos, como o de penteados específicos para noivas e o de tranças e não parou nunca mais de estudar e se aperfeiçoar.

Hoje, ela realiza trabalhos para campanhas publicitárias como beauty-artist, ou seja, fazendo o penteado e a maquiagem de modelos e outros artistas. A transição exigiu sacrifícios e a ajuda de seu marido, mas ela está certa de que fez a melhor escolha.

“O sentimento que eu tenho é de que quando se está no caminho certo, as portas vão se abrindo. Eu me considero uma pessoa muito bem sucedida. Ganho bem mais como maquiadora do que ganhava como assessora de imprensa”.

PC: Por quanto tempo você atuou como jornalista?

Eu me formei em 2000 na Universidade Metodista e, no final do segundo ano, comecei a trabalhar com assessoria de imprensa. Trabalhei em várias agências, sempre com clientes B2B, com assuntos bem técnicos.

No início, achava o máximo, mas, com o passar do tempo, fui me especializando cada vez mais em clientes B2B, associações técnicas, assuntos que não tinham nada a ver comigo e a rotina das agências era um pouco intoxicante.

Tenho duas filhas que hoje estão com 7 e 12 anos e, quando eu chegava em casa, estava exaurida, sem forças.

A rotina da assessoria contribuiu para que eu me sentisse assim.

Conversei com o meu marido, Fernando, e disse que não conseguia mais ser feliz com o que eu fazia. Ia todos os dias, dava o meu melhor, mas o trabalho não tinha mais a ver com quem que era.

E eu tinha toda uma arte reprimida, porque sempre gostei de desenhar, desde pequena. Sempre curti moda, arte, cinema, música e o meu trabalho me afastou muito disso que eu amava. E foi ele, o Fernando, quem me deu a ideia de fazer um curso de maquiagem.

Eu decidi fazer um curso profissionalizante, com a ideia de pegar clientes aos finais de semana para festas e até fazer um dinheiro extra.

No segundo dia de aula, eu já sabia que era aquilo o que queria para a minha vida.

O entorno da profissão é lindo, conhecer muita gente das artes, fotógrafos, estilistas, outros maquiadores, cabeleireiros. Mas a parte criativa também me atraiu bastante.

PC: Como você planejou essa transição?

Foi uma coisa bem abrupta. Conversei com a minha chefe e a transição durou o tempo do aviso prévio, um mês.

De repente, eu já estava na maquiagem. Fiquei pensando: como vou conseguir clientes?

Ninguém me conhecia, eu estava começando. Mas o sentimento que eu tenho é de quando se está no caminho certo, as portas vão se abrindo.

Os professores me indicavam, os colegas do curso também, nós fazíamos vários trabalhos juntos.

No início, a parte financeira foi difícil, um malabarismo, o Fernando segurou muitas pontas em casa, mas as coisas se encaminharam super bem e muito rápido.

Paralelamente ao curso de maquiagem, eu mergulhei completamente no mundo da moda.

Assisti a muitos documentários e estudei muito, porque eu queria ser a melhor profissional que eu conseguisse.

Fui enveredando para esse lado que não é de maquiagem social e de noivas. Apesar de gostar, acho que deixa muito a desejar na parte artística. Então fui para a parte de moda, fazer campanhas e trabalhar com modelos.

PC: Como é a sua rotina como maquiadora? Pode me contar como é o dia a dia de um profissional da sua área?

Geralmente, as marcas têm fotos o ano inteiro, não tem muita sazonalidade. Sempre tem campanhas.

O cliente me liga e diz, por exemplo: vou fotografar três modelos. Eu peço um briefing e eles me passam uma ideia do que querem, de como é a coleção e nós criamos a beleza juntos.

Eu sugiro algumas coisas, eles sugerem outras e, quando chega o dia, eu faço. Quando tem foto, eu acordo em torno de 3h30, 4h para começar a maquiar 5h, 6h, aproveitar o dia inteiro e isso vai até muito tarde.

Muitas fotos são fora de São Paulo e essa é uma parte que eu gosto muito, de viajar bastante. Tem campanhas que duram três, quatro dias de fotos, que começam cedinho e vão até altas horas.

Em trabalho com a artista Maisie Williams, que interpreta a Arya Stark de Game of Thrones

PC: Quais foram os principais desafios que você teve que superar para se dar bem como maquiadora?

No início, havia trabalhos que não pagavam bem, então eu praticamente pagava para trabalhar. E isso foi superdesafiador, até a roda virar e começar a fazer contatos.

Mas acredito que seja assim na maioria das profissões: no início as pessoas suam bastante e depois de um tempo colhem os louros.

Mas mesmo esses trabalhos pequenos me davam alguma visibilidade ou contatos novos e fidelização de clientes.

E trabalho sempre chama trabalho. Eu fotografava o que eu fazia e postava no Instagram, que é uma ferramenta maravilhosa para a minha profissão, pois é uma forma de as pessoas terem acesso ao seu portfólio e saberem como você trabalha. É importante não deixar tempo ocioso.

Estar sempre na ativa produzindo, estudando, se aperfeiçoando, cuidando do seu material, saber lavar pincéis, enfim… eu estou sempre muito atenta à data de validade dos produtos para chegar no trabalho, no dia seguinte, com o material impecável.

PC: Tem algo do jornalismo que é útil hoje na sua nova profissão?

A comunicação certamente. Isso me diferencia muito no mercado, porque sei me expressar bem, sei falar em público.

Tenho inglês fluente e, por isso, hoje tenho clientes internacionais.

Maquiei o pessoal do Game of Thrones quando eles vieram para o Brasil e um dos critérios na seleção dos maquiadores era que a equipe falasse inglês fluentemente.

PC: O que é preciso (em termos de características comportamentais e habilidades) para ser um bom maquiador? Por exemplo, saber desenhar ou ter delicadeza no manejo dos instrumentos é fundamental ou se aprende?

Não precisa saber desenhar e a delicadeza no manejo dos instrumentos é uma habilidade que se aprende.

Além disso, a pessoa vai se aprimorando cada vez mais. Não é preciso imprimir força no pincel ou na ferramenta que se está utilizando para ter um bom resultado.

É necessário imprimir amor e zelo no que se faz. Por isso, é preciso estar presente de corpo e alma quando se está trabalhando.

Uma dica para novos maquiadores é bem básica: não fique no celular durante a sessão de fotos. Esteja realmente presente, porque você pode ajudar em outras áreas.

Por exemplo: você reparou que a bainha da calça do modelo tem um fiozinho e avisa.

É bom estar sempre atento. Quanto a características comportamentais, acredito que é o fundamental de qualquer profissão: ser agradável, discreto quando necessário, e se doar para aquilo que se propõe a fazer.

PC: Tem algo na sua rotina que você considera um desafio ou algo não tão legal?

Na rotina especificamente, eu diria que lavar pincéis é um mal necessário (risos).

Mas a dificuldade maior é a de relacionamento com pessoas que não estão na mesma vibe que você.

Pessoas são complicadas, em qualquer área. E nós encontramos algumas que não são tão bacanas ou não estão em um bom dia.

Maquiagem é um artigo caro mas, como eu resolvi ser uma maquiadora diferenciada, decidi adquirir materiais muito bons.

Eu só vou trabalhar só de Uber, porque, às vezes, chego a transportar, 50 mil reais em produtos na minha maleta. E esses deslocamentos eu acabo colocando no preço do meu cachê.

PC: Teve algum caso de cliente com que você teve que lidar e que considera marcante na sua trajetória profissional? Por quê?

O pessoal do Game of Thrones, que veio para o Brasil para a Comic Con e eu fiquei sabendo quem eu ia maquiar na noite anterior.

É claro que eu fiquei superfeliz, superansiosa, mas controlei os nervos (risos). Eu maquiei a Maisie Williams, que interpreta a Arya Stark e o John Bradley-West, que faz o Samwell Tarly. E o David Benioff e o D. B. Weiss, que são produtores da série. Nós fomos para o evento no comboio das celebridades, de carro blindado. Foi uma experiência bárbara.

PC: Qual é a sua concepção de sucesso? Considera-se uma pessoa bem-sucedida?

Minha concepção de sucesso é estar bem e feliz comigo mesma e ver isso traduzido no meu trabalho.

Conseguir passar tempo de qualidade e mais tempo com as minhas filhas. Hoje sou eu quem controla os meus horários, porque escolho os jobs que quero fazer.

Então, se tem um job que eu acho que não paga muito ou não vai me acrescentar muita coisa, posso declinar e passar esse dia com as minhas filhas.

Sucesso é amar o que se faz e ter tempo para o que realmente importa na vida. Por isso, me considero uma pessoa muito bem sucedida hoje.

Além disso, ganho bem mais como maquiadora do que ganhava como assessora de imprensa.