Racismo no mercado de trabalho: uma luta de todos

Racismo no mercado de trabalho: uma luta de todos

As recentes manifestações #blacklivesmatters reforçaram as discussões sobre o racismo no mercado de trabalho. Muitas empresas se manifestaram a favor do movimento, porém, quando falamos das práticas diárias, a realidade ainda precisa ser diferente para ser verdadeiramente inclusiva. 

Segundo dados do IBGE, a desigualdade entre brancos e negros a aparece nas vertentes de desemprego, renda e na comparação por sexo. Em 2018, a população preta ou parda representou pouco mais da metade do total dos brasileiros (55,8%). Já em relação aos desempregados, a população negra ocupa 15% da média. Também é possível ver disparidade na renda, que representa diferença de 73,9%. Indo mais a fundo, quando a pauta é rendimento médio por sexo e cor ou raça, homens e mulheres negras ganham 26,4% e 31,9% menos, respectivamente. 

Com toda essa movimentação em prol do movimento antirracista, como o mercado de trabalho pode fomentar essa causa e ser exemplo de respeito e inclusão? Para entender mais do assunto, falamos com o João Souza, diretor presidente e Head de futuros inclusivos do FA.VELA. O FA.VELA é uma organização sem fins lucrativos que atua como um hub de educação e aprendizagem empreendedora, inovadora, digital e inclusiva. A missão da organização é promover a diversidade e o desenvolvimento social, econômico e ambiental, por meio do empoderamento de grupos e territórios vulnerabilizados. 

O que as empresas devem fazer para serem realmente uma empresa antirracista? 

O chamado “ativismo de marca” fez com que várias empresas se manifestassem a favor do movimento #BlackLivesMatters. Isso acontece, pois, contribui positivamente para a imagem da marca pela percepção dos consumidores. O que deve ser feito, de fato, é que as corporações façam planos de longo prazo visando a igualdade racial e a diversidade. 

“O primeiro passo é um autodiagnóstico papo reto mesmo, que vai do olhar para alta direção e outros níveis de liderança. Isso nos remete ao “tempo” versus “ações”; não no espectro do marketing institucional, mas ações efetivas de combate ao racismo estrutural, que vai das equipes internas e ao longo de toda a cadeia dos produtos e serviços ofertados por uma organização.”, disse João Souza. 

O que caracteriza racismo no mercado de trabalho? 

A lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.  O artigo 20 destaca: “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”.

“O racismo é um organismo vivo e altamente adaptativo. As sutilezas que ele desenvolve estão presentes na normalização e relativização com outras questões cruéis e perversas no mercado de trabalho. As empresas e organizações por meio de suas lideranças escolhem o como enquadrar comportamentos não corretos e muitas vezes o racismo é a última pauta a ser tratada em casos de exclusão de talentos negros. Pessoal da gestão de pessoas e RH’s precisam estar atentos e aprender rápido para combater estas práticas.”, complementou João. 

Como uma contratação de um profissional pode ser mais inclusiva? 

Para que um processo seletivo pregue a diversidade nos processos seletivos, diversas medidas devem ser adotadas para quebrar padrões preestabelecidos por uma cultura enraizada. 

“A lutas envolvidas na busca por uma vaga quando se trata de uma pessoa negra são muitas, elas passam pelo básico que é renda e vão até à questão de gênero. O primeiro passo a meu ver são análises cada vez mais humanizadas e entender que contratar pessoas negras e diversas é investimento, e que como qualquer investimento ele tem seu tempo de retornos. Mas a notícia boa para empresas e organizações, é que antes de políticas de cotas e empoderamento econômico por questões estruturais, era mais difícil achar sim pessoas negras mais qualificadas no que tange educação formal e técnica. Hoje não! Eu mesmo posso indicar profissionais negras e negros em minha rede, para ocupar cargos de CEO a estrategista. Só me mandar um email! rs”, explicou.  

Quais práticas uma empresa pode ter para ser/apoiar a inclusão/valorização de profissionais negros?

Para João, as possibilidades são imensas e se resumem em dar oportunidade para pessoas negras. 

“Oportunizar! É muito importante que a igualdade seja de oportunidades e valorização de talentos e potencias negras, e não apenas cumprir gabaritos de cotas. Precisamos escalar cada vez mais e mais rápido, para fazermos mudanças estruturais no sistema atual.”, disse.

Racismo no mercado de trabalho: uma luta de todos

Como uma pessoa pode incentivar a luta contra o racismo e a adoção de políticas inclusivas na empresa que trabalha?

A luta contra o racismo não é somente de quem sofre qualquer tipo de preconceito, mas sim um papel para toda a sociedade.  

“O antirracismo passa por aí, as pessoas não negras também precisam se posicionar. Claro, eu entendo que isso passo por questões de autopreservação, mas as pessoas não negras precisam entender que a cor lhes dá poder, e precisamos deste apoio no combate ao racismo institucional.”

Caso uma pessoa identifique uma atitude racista no mercado de trabalho, ela pode se posicionar e agir contra estas práticas.

“O antirracismo para nós pessoas negras é muito mais importante do que o não ser racista. Precisamos estar vigilantes! O Racismo é sutil muitas vezes para as pessoas não negras e que se afirmam não racistas. Está no nosso dia a dia, nas pequenas coisas e que muitas vezes são normalizadas.”, disse. 

Vocês acreditam que falta incentivo político para mais ações de inclusão aconteçam? 

De acordo com um artigo publicado no site Congresso em Foco, apenas 77 dos 1.790 políticos eleitos em outubro de 2018 são negros. O número representa apenas 4,3% de todos os eleitos em cargos nos poderes Executivo e Legislativo nas esferas estadual, distrital e nacional. Para João Souza, diretor presidente e Head de futuros inclusivos do FA.VELA, faltam muitos incentivos políticos e ações que preguem a inclusão e a diversidade.

“Estamos lutando ainda pela presença de pessoas negras na representação política e nossos números estão distantes do ideal. Se não existe pessoas negras na construção de políticas, com certeza elas não serão inclusivas.”, afirmou. 

Vocês sentem que nos últimos anos as empresas estão adotando práticas mais inclusivas?

Temos um grande caminho para que o mercado de trabalho seja verdadeiramente inclusivo e antirracista, mas, o aumento de discussões fazem contribuem para que mais mudanças sejam feitas.

 “Existem avanços sobre a questão da inclusão dentro das empresas. Mas o grande problema é o tamanho do problema, a normalização do racismo sempre reduz a ações pontuais o que chamamos de combate. Mas é tempo de tratar, curar e não só combater como uma praga. Para pessoas negras o racismo existe como algo vivo, que respira e anda entre nós.” 

Agora que você já conheceu um pouco mais sobre como ser uma empresa inclusiva e com uma equipe baseada na diversidade, que tal começar a pensar nos processos existentes na instituição na qual você trabalha? Se ela ainda não tem um processo de diversidade bem definido, pode ser o momento de começar a mudar esta realidade.

Fica apenas o nosso alerta para que estes processos sejam realmente verdadeiros, ou seja, que realmente promovam mudanças efetivas. 

“Cuidado para não cair no “Black Washing”, das telas pretas, das lives patrocinadas e do #VidasNegrasImportam! Para pessoas físicas bom senso e auto reflexão. Para empresas, acreditem, este processo fica bem melhor com auxílio de profissionais de diversidade e inclusão dando suporte.”, finalizou João Souza, diretor presidente e Head de futuros inclusivos do FA.VELA.

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