Um mercado em plena expansão e que carece de bons profissionais. As ciências ligadas à computação, como a engenharia de software, certamente irão crescer cada vez mais com a evolução da tecnologia e a automação dos processos nas empresas. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Softwares, o Brasil está em nono lugar no ranking mundial de investimentos em tecnologia de informação. Ou seja, tudo indica que as oportunidades de emprego nessa área só tendem a crescer.

Mas será que a engenharia de software é para você? Para compreender os desafios e oportunidades da profissão, entrevistamos o engenheiro de computação Raphael Motta, que atualmente trabalha com desenvolvimento de computadores de bordo para tratores de plantio. Aos 34 anos, o profissional acumula mais de 15 de experiência e traz insights interessantes sobre esse mercado. Além das habilidades técnicas comumente exigidas nessa área – como raciocínio lógico e conhecimentos de matemática – Raphael destaca as soft skills como características importantes. “Há uma demanda por pessoas que sejam boas em comunicação, pois para desenvolver bem um software, há a necessidade de um bom levantamento de requisitos. Assim, o contato com cliente e uma boa comunicação são imprescindíveis”, ressalta. Confira a entrevista completa a seguir.

Quanto ganha um engenheiro de software? A média salarial do cargo é de R$ 6,303 (Fonte: Vagas)

PC: Por que você escolheu seguir a carreira de engenheiro de software?

Desde pequeno tenho facilidade com computadores e sempre tive curiosidade sobre como os softwares de computadores eram construídos. Quando eu tinha 13 anos fui a uma feira de computação chamada
FENASOFT, na qual ganhei do meu pai um livro sobre programação, chamado DELPHI 2. A partir daí começou minha trajetória com desenvolvimento de software.

PC: Conte um pouco sobre a sua trajetória como engenheiro de software até chegar na empresa e cargo que ocupa.

Eu entrei em 2004 na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) para cursar graduação em Engenharia de Computação. Já no segundo ano de universidade, em 2005, comecei a trabalhar em um laboratório no departamento de engenharia de produção desenvolvendo software de análise ergonômica e cinesiológica do movimento para empresas como Correios, Embraer e Petrobras. Nesse mesmo emprego fui responsável pela gerência e manutenção de servidores, rede e banco de dados dos projetos mencionados anteriormente. Em 2007 fui selecionado entre alguns brasileiros e outros do mundo para uma competição do Google chamada Google Summer of Code, para trabalhar com aplicativos opensource ou desenvolver novos. Nessa competição eu desenvolvi um sistema de controle por fala da interface de usuário do Linux GNOME.

PC: Sua participação na competição tornou seu currículo mais atrativo para o mercado de trabalho?

Após a conclusão dessa competição, e com conhecimentos que adquiri ao longo dela, fui aceito para um estágio no P&D (centro de pesquisa e desenvolvimento) da Microsoft (MLDC), em Portugal. Fui trabalhar com tecnologias de fala (base para todos os sistemas de fala da Microsoft, como a Cortana). Estava no laboratório quando foi feito o primeiro teste com a Cortana em Português do Brasil e em Português de Portugal, algo que chegou ao mercado só uns sete anos depois. Ao voltar para o Brasil, em 2008, consegui um estágio no P&D da Philips Medical, onde fiquei até 2014. Na Philips, desenvolvia equipamentos médicos de ponta e, nos últimos anos, era responsável pelo software de um aparelho de anestesia. Era o primeiro projeto de equipamentos de anestesia da Philips a nível global.

Em 2014, fui trabalhar no setor de energia, onde, além de desenvolvedor de software, também coordenava uma equipe de engenheiros. Era responsável por projetos pioneiros no Brasil na área de SMART-GRID, especificamente em medição de energia e telemetria. Foi quando pude participar dos dois primeiros projetos de cidade inteligente do Brasil. Em 2016 mudei para a área de agricultura, onde estou até hoje, na J. Assy, desenvolvendo computadores de bordo para tratores de plantio, uma área em pleno crescimento no Brasil. Durante essa jornada de quase 15 anos na área, também executei projetos para empresas no Vale do Silício e na Europa, todos na área de produtos eletrônicos. Desenvolvi equipamentos inovadores em áreas de smart-watch, equipamentos de áudio, processamento de imagens, segurança, machine learning, deep learning.

PC: O que faz um engenheiro de software? Qual é a diferença entre a engenharia de software e a engenharia da computação?

Engenheiro de Software é uma pessoa capaz de conceber, arquitetar e programar sistemas e softwares de alta complexidade. Eu diria que engenharia de software é um cargo e ciência da computação é uma profissão. Eu, por exemplo, sou Engenheiro de Computação por profissão e ocupo o cargo de Arquiteto de Software (que poder ser considerado, às vezes, como uma evolução do Engenheiro de Software).

Raphael durante trabalho de campo, em que verifica o software do computador de bordo de um trator

PC: Como é o dia a dia do engenheiro de software no trabalho?

Grande parte do trabalho do Engenheiro de Software é realizada dentro de um laboratório, pois é onde temos as ferramentas necessárias para a realização do trabalho. Além disso, é um ambiente mais tranquilo para programar. Uma parte do trabalho é verificar e validar os produtos desenvolvidos, e isso, muitas vezes, é realizado em campo. No meu caso atual, em fazendas, ou seja, literalmente no campo.

PC: Qual é o perfil do profissional que esse mercado procura?

Eu posso comentar sobre a minha área de atuação, que é desenvolvimento de software para equipamentos eletrônicos. Há uma falta muito grande de bons profissionais nessa área, pois a maioria dos profissionais vai trabalhar com desenvolvimento de software web ou mobile. Afinal, há muito mais acesso a informações para se trabalhar nesse setor. Além disso, para trabalhar com software para equipamentos eletrônicos é necessário conhecer sobre hardware além de somente programar. O mercado precisa de profissionais que sejam muito bons de lógica, conhecimento analítico, forte conhecimento matemático, além de bons programadores. Há também uma demanda por pessoas que sejam muito boas em comunicação, pois para se desenvolver bem um software há necessidade de um bom levantamento de requisitos. Assim, o contato com clientes e uma boa comunicação são imprescindíveis.

PC: Como você enxerga o futuro da engenharia de software?

O crescimento do uso de tecnologias computacionais é exponencial. Hoje, em praticamente em todas as áreas, é possível aplicar computação e sistemas eletrônicos. Por isso, eu diria que a demanda por esse tipo de profissional é gigantesca. Hoje em dia, há falta de bons profissionais para trabalhar com isso. Em 10 anos, essa situação será muito pior, caso não tenhamos pessoas capacitadas. E não é só no Brasil, esse é um cenário mundial. Tanto é que empresas de outros países buscam profissionais no Brasil, pagando salários mais atrativos, além da promessa de mais qualidade de vida. Dessa forma, o Brasil perde bons profissionais.

PC: Qual é a importância de saber outros idiomas para um profissional da engenharia de software?

Eu acho imprescindível conhecer outros idiomas, principalmente o inglês. Afinal, sem outros idiomas, o acesso a materiais de maior qualidade torna-se difícil. Infelizmente só com materiais em português não temos acesso a tudo de que precisamos como engenheiros de software. Além de acesso a melhores informações, abre-se também a possibilidade de trabalhos com empresas do exterior ou até mesmo de conseguir um emprego fora do Brasil.

PC: O que é sucesso para você? Considera-se bem-sucedido?

Sucesso é acordar todos os dias e saber que está trabalhando com aquilo de que se gosta e que evolui a cada dia, mesmo que seja 1% a cada dia. O retorno financeiro vem como recompensa por isso. Eu me considero uma pessoa de sucesso, pois tenho certeza de que escolhi a profissão certa.