Não é à toa que ele é chamado de Tubarão Paralímpico. O nadador profissional Clodoaldo Silva tem com as piscinas a intimidade que um peixe tem com o oceano. Mas não apenas isso: ele já nasceu com a garra e a determinação típicas dos tubarões. Por falta de oxigenação durante seu parto, Clodoaldo nasceu com paralisia cerebral, o que afetou o movimento de seus membros inferiores. Mas, desde muito cedo, descobriu que teria que lutar para conseguir o que desejava. Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, começou a trabalhar aos 14 anos para ajudar sua família. 

 

Depois de várias cirurgias, começou a fazer natação por recomendação médica e, assim, encontrou sua paixão pelas piscinas. O entusiasmo e dedicação ao esporte lhe renderam mais de 500 medalhas, 14 das quais foram conquistadas nos Jogos Paralímpicos de Sydney, Athenas, Pequim, Londres e Rio de Janeiro. No mundial realizado no Brasil em 2016, Clodoaldo encerrou sua carreira como nadador profissional, em um momento histórico para o país e para ele próprio: o atleta acendeu a Pira Olímpica durante a cerimônia de abertura dos Jogos.

O tubarão fora das águas

 

Hoje, a rotina do recordista mundial é bastante agitada: ele atua como palestrante, administra Vilas Olímpicas no Rio de Janeiro e coordena dois times paralímpicos. Além disso, trabalha para empresas na contratação de pessoas com deficiência e é comentarista do grupo Globo de televisão e do SporTV, no esporte paralímpico. “Nunca me senti um coitadinho. Quando se é bem resolvido, pode acontecer o que for, mas você sempre está apto para buscar seus objetivos.”

 

Qual é o salário de um nadador profissional? A média salarial para a profissão no Brasil é de R$ 4.507 (Fonte: Salário).

 

PC: Como foi o seu início nesses dois universos: o do mercado formal e o da natação profissional?

 

Eu nasci com paralisia cerebral por falta de oxigenação durante o parto, o que ocasionou a falta de coordenação motora nas minhas pernas. Ao longo da minha infância e adolescência, fiz várias cirurgias, a última aos 16 anos, e meu médico recomendou a natação como processo de reabilitação. Dois anos depois de começar a nadar, recebi um convite para participar da equipe paralímpica do Rio Grande do Norte, aceitei e, em 1998, participei de uma competição no Rio de Janeiro, onde fiz três provas e ganhei minhas primeiras medalhas. Em 1999, recebi minha primeira convocação internacional e também recebi medalhas de ouro.

Mas eu venho de uma família muito humilde, em que todo mundo precisava trabalhar. Por isso, comecei a trabalhar aos 14 anos como artesão, fazendo cadeiras de cordas para balanço que se veem muito no nordeste. Aos 19 anos, fui trabalhar em uma oficina de órtese e prótese, sempre conciliando com os treinos de natação, me dedicando aos dois. Dos 19 aos 22 anos, tive meu terceiro e último emprego, como auxiliar de escritório, em Natal. Nessa idade, eu já tinha ganhado destaque nacional e internacional, e consegui patrocínios, comecei a ser remunerado para nadar e pude largar o emprego e me dedicar apenas à natação profissional.

 

PC: Mesmo com a responsabilidade de trabalhar para ajudar sua família, você conseguiu se destacar como nadador profissional. O que você acredita que determinou seu êxito?

 

Não foi fácil, porque muitas vezes, logo no início, eu tinha que trabalhar estudar e treinar. E, muitas vezes, quando tinha campeonatos nacionais ou internacionais, eu precisava de uma ajuda de custo para me destacar. Às vezes, eu tinha que deixar de treinar porque não podia faltar no trabalho e nem na escola. Assim, eu abria mão do treinamento para bater na porta das empresas em busca de emprego. Mas as dificuldades me serviram de incentivo para continuar em frente. Foi isso que eu fiz e acredito que esse é o segredo para eu ter sido tão bem-sucedido dentro da água.

 

Nadador profissional: Clodoaldo Silva acende a Pira Olímpica na cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro Clodoaldo Silva acende a Pira Olímpica nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016

 

PC: Seguir uma carreira no esporte é algo bastante desafiador no Brasil. Qual é, na sua opinião, o segredo para ser bem-sucedido no esporte, em geral?

Em minha opinião, para ser bem-sucedido, seja no esporte ou em qualquer área que se queira seguir, é preciso se dedicar muito. Além disso, é preciso ter prazer em fazer o que você gosta. A partir do momento em que você não sente prazer no que faz, é melhor desistir, porque nunca vai obter sucesso. Eu sempre gostei muito de nadar e me dedicava ao máximo. Sempre fui um perfeccionista e sabia que tinha que melhorar os detalhes para que pudesse ter destaque. Esse é o grande diferencial para que se possa ser bem-sucedido no esporte.

 

PC: Você passou por desafios pessoais que teriam desanimado a maioria das pessoas, mas, em vez disso, você se tornou um nadador profissional e ganhou mais de 500 medalhas. Onde você busca inspiração e determinação para se superar sempre?

 

 Passei por muitas dificuldades logo ao nascer com essa deficiência, a paralisia cerebral. Na minha infância e adolescência passei por situações de preconceito e discriminação, mas sempre fui muito bem resolvido com a minha deficiência. Recebi muito carinho e amor da minha mãe e dos meus irmãos. Nunca presenciei atitudes de preconceito deles com ninguém. Me ajudavam sempre que podiam. Então, tive muita naturalidade para sair de casa e ir viver a minha vida. Por mais que encontrasse dificuldades, eu sabia que, com otimismo e pensamento positivo eu conseguiria superar tudo aquilo. Nunca me senti um coitadinho. Quando se é bem resolvido, pode acontecer o que for, mas você sempre está apto para buscar os seus objetivos. E foi o que eu fiz. Eu não sou de me lamentar. Quando acontecia algo não tão legal, eu seguia em frente, em busca das coisas que são legais.

 

 

PC: Além de nadador profissional, você também é palestrante. Em que momento – e por que – decidiu investir nesse outro talento seu? Você acredita que diversificar a atuação profissional pode ser um bom caminho para quem deseja seguir carreira no esporte?

 

 

A realização de palestras surgiu por acaso. Competi nos Jogos Paralímpicos da Grécia em 2004, voltei cheio de medalhas e os brasileiros queriam saber quem era aquele cara que saiu de uma comunidade em Natal, no Rio Grande do Norte e conseguiu ganhar o mundo com muitas vitórias. Comecei a ser chamado para vários eventos. Nunca tive dificuldade para me expressar, sou muito extrovertido, gosto de me comunicar. Gosto de, por meio das minhas atitudes e, principalmente, das palavras, passar algo que faça as pessoas se sentirem bem.

Quando comecei a realizar palestras e a ver a reação do público, ficava feliz e sabia que precisava estudar mais, me qualificar e me preparar a cada dia, para passar uma mensagem legal para tantas pessoas que se sentem incapazes. Sempre gostei de diversificar, de fazer coisas diferentes aqui e ali, mas acredito que temos que nos preparar muito. É importante diversificar, mas é muito mais importante se qualificar para ter domínio de tudo aquilo que você faz.

 

PC: Com toda a sua
experiência nesse universo do esporte, como você acredita que alguém que tem o
sonho de tornar-se um nadador profissional pode trilhar um caminho nesse
sentido?

 

Qualquer que seja o sonho, é preciso fazer com que se torne sólido, concreto. Eu nasci em uma comunidade em Natal, tive paralisia cerebral, passei dificuldade pra caramba, mas consegui vencer na vida. Então, se eu, com todas essas dificuldades, consegui, todo mundo é capaz de fazer o mesmo. Se você tem esse grande sonho, seja de ser atleta, seja de tornar-se presidente do Brasil, seja ser um doutor, faça com o coração e se inspire nos grandes nomes da área que você quer seguir. E, acima de tudo, treine e se dedique muito.

 

PC: A carreira de atleta costuma ser curta. Que conselhos você daria para os nadadores profissionais se prepararem para o futuro?

 

 

Que eles invistam seus rendimentos na sua educação, em algo que traga lucro no futuro. Em cursos profissionalizantes. Eu sou um grande exemplo disso. Hoje, eu não nado mais. Mas administro Vilas Olímpicas no Rio de Janeiro, no segmento voltado para pessoas com deficiência e coordeno dois times olímpicos e paralímpicos. Além disso, trabalho para duas empresas na contratação de pessoas com deficiência, realizo palestras, sou comentarista do grupo Globo de televisão e do SporTV no esporte paralímpico. Mas tudo isso é fruto de investimento na minha carreira. Então, acredito que é preciso investir na sua capacidade, porque se nós conseguimos ir para países distantes, para nadar provas ou participar de qualquer outra modalidade e estar no lugar mais alto do pódio, conseguimos também nos qualificar e continuar dando exemplos fora do esporte para tantas pessoas com e sem deficiência pelo Brasil afora.

 

PC: O que é sucesso para você?

 

É fazer o que eu amo, o que eu tenho prazer, sempre dando o meu melhor. Tenho 40 anos e já fiz muita coisa. E tudo o que eu fiz foi porque eu queria, por gostar. Em algumas vezes, tive êxito, em outras não. Mas ser capaz de realizar tudo o que eu quero é sucesso para mim.